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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Somos tão jovens (Idem)


Somos tão jovens (Idem) – 2013 – Brasil

Direção: Antônio Carlos da Fontoura

Roteiro: Marcos Bernstein

Uma vez que se sabe que o filme Somos tão jovens é sobre o início da carreira musical de Renato Russo e a sua banda mais famosa Legião urbana, uma sinopse não é necessária. Essa cinebiografia fica ao lado de Cazuza – o tempo não para como um bom exemplar do gênero, mas que não surpreende ou emociona. Apenas serve para contar a história de seus protagonistas, ressaltar sua genialidade e colaborar um pouco mais para a criação do mito, distanciando o ícone do resto da humanidade.

Enquanto Ray e Piaf – um hino ao amor não tinham medo de mostrar o lado mais obscuro, digamos assim, dos seus protagonistas, suas falhas de caráter e erros de julgamentos cometidos ao logo da vida (mas pecando por outros problemas narrativos) Antônio Carlos da Fontoura parece ter um pouco de medo de humanizar Renato Russo e trazer alguma identificação com o público. Identificação essa que fica só por conta das músicas que todos conhecem e do sentimento de nostalgia que elas trazem. Poucas vezes me emocionei ao longo da projeção e me importei apenas levemente pelas pessoas que estavam na tela. Considero isso um problema grave.

O Renato mostrado pelo roteiro de Marcos Bernstein parece ser sempre alguém à frente de seu tempo, e até mesmo um pouco arrogante por ter consciência disso. Enquanto ninguém conhecia o punk rock vindo da Europa, Renato o trouxe e o divulgou como o ‘som do futuro’, dizendo que a sua geração tinha que se engajar nas causas políticas através da música e fazer algo a respeito da ditadura no país. Depois de um tempo e do fim da banda, eis então que surge Renato solo com um novo som e novas músicas, com letras mais amenas e menos politizadas, dizendo que o punk rock era coisa do passado. É impossível não simpatizar com ele e se deixar envolver com seu carisma (créditos para a incrível performance de Thiago Mendonça), mas imagino que seria um tanto irritante conviver com alguém que se julgava tão superior e todos o outros tão atrasados.

Voltando à atuação de Thiago Mendonça, o trabalho de caracterização realmente é impressionante. E isso eu não digo só pelo cabelo, barba, óculos e forma de se vestir. Muito pelo contrário. Esses elementos ajudam, mas são uma mínima parte do trabalho de um grande ator. Ele incorpora os trejeitos de Renato no palco, e até mesmo a dicção meio arrastada, como de alguém que sempre estivesse fazendo um discurso em frente a uma plateia, além do timbre de voz tão característico. Isso sem falar nas cenas que exigem mais de seu talento dramático, nas quais ele corresponde à altura, e em momento algum soa caricato ou chego ao overacting.
O roteiro de Marcos Bernstein tem uma estrutura coesa, mas peca quando atira versos das músicas de Renato no meio de diálogos em momentos de efeito e dramáticos. Soa forçado e atira o expectador pra fora da narrativa. Mas o mesmo tempo é bem interessante descobrir como surgiram músicas como Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo.

O desfecho do filme é um pouco decepcionante. Confesso que esperava um final mais com cara de final mesmo, e com o pay off que os diretores de Hollywood gostam tanto e que um filme do gênero (cinebiografia, no caso) pede tanto.

A conexão de Renato, seus amigos e os membros da sua banda são o centro da narrativa, porém eu confesso que senti falta um pouco de entender como era a dinâmica de sua família e como ela afetava sua arte, sua forma de pensar e os seus outros relacionamentos. Acho que isso iria torná-lo mais humano aos nossos olhos e um personagem mais complexo. Algo que pra Cinema é sempre mais interessante do que figuras unidimensionais e superficiais. O filme mostra seus pais e irmã, mas de forma sempre rápida de sem se aprofundar muito.

O seu interesse amoroso por Flavio, um dos membros do Aborto elétrico é retratado de forma burocrática e covarde. Assim como a homossexualidade de Renato. Em momento nenhum ele aparece se relacionando de forma íntima com homens, o que soa hipócrita, visto que a sua ligação com Ana sua amiga/namorada é mostrada de forma natural. Nada mais normal do que retratar os seus primeiros contatos sexuais com outros homens. Talvez seja um reflexo da Globo filmes. Mas enfim...

Somos tão jovens é uma bela homenagem à banda Legião Urbana e ao seu criador, mesmo que não seja um grande estudo de personagem e que só ajude a mitificar o mesmo.

Nota: 7,0

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a friend for the end of the world)


Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a friend for the end of the world) – 2011 – USA

Direção: Lorene Scafaria

Roteiro: Lorene Scafaria

Depois de ter colaborado no roteiro do simpático e divertido Uma Noite de Amor e Música, Lorene Scafaria estreia na direção desse igualmente simpático e também emocionante Procura-se um amigo para o fim do mundo.

Dodge (Steve Carell) é um homem de meia idade solitário que foi abandonado pela esposa. Diante do fato de que um asteroide chamado Matilda irá atingi a terra em três semanas e destruir toda a vida no planeta, Dodge se vê na necessidade de encontrar um amigo(a) para juntos passarem o fim do mundo. Um casal de amigos seu tenta juntá-lo a uma conhecida, mas a tentativa acaba sedo frustrada. Até que aparece então na janela de seu quarto a sua vizinha de baixo, a intensa Penny (Keira Knightley) numa crise de choro causada pelo seu namorado desequilibrado. A partir dali, os dois se toram amigos e partem numa jornada juntos. Penny quer pegar um avião para ver seus pais em Londres antes do fim do mundo e Dodge quer reencontrar sua antiga namorada do colégio, que lhe enviou uma carta dizendo que sempre o amou.

O roteiro se desenvolve como um road movie dos mais empolgantes, mesmo com o fato de os personagens estarem presenciando o fim do mundo e todas as consequências que isso traz. As rebeliões e a queda de qualquer organização social, os suicídios, a perda dos valores morais da sociedade e a perda do sentido da vida, de forma geral.

Esse assunto que já foi retratado no cinema de várias vezes, de forma dramática na maioria das vezes, aqui assume um tom sarcástico e irônico. Cada grupo de pessoas que os dois vão encontrando pelo caminho apresentam o seu próprio modo de enfrentar o fim dos tempos, o que rende momentos muito divertidos e também que nos fazem refletir. Saber o dia de sua própria morte não é algo natural, como diz certo personagem no filme. Imagine o mundo todo sabendo disso ao mesmo tempo. Toda a concepção de vida e os seus objetivos como conhecemos deixa de existir. Vemos então diretores de empresas oferecendo cargos de presidentes para qualquer funcionário, pais dando bebidas alcoólicas para os filhos, pessoas casadas deixando a fidelidade de lado, afinal, porque ser fiel se o mundo vai acabar? Não tem como não rir diante desse caos com o tom que o filme retrata o assunto. E não tem como não parar para pensar nos seus próprios valores de vida e objetivos. Como eles mudariam se você soubesse o dia de sua morte? O que você faria nos seus últimos dias? Com quem passaria? São perguntas que o roteio tenta responder através de seus perturbados e carismáticos personagens.

Steve Carell está muito bem, com uma performance contida, porém bem humorada e com ótimo timing cômico como de costume. A surpresa fica por conta de Keira Knightley, atriz dramática desde o início de sua carreira, mostra que é versátil para fazer também comédia. Ela acaba exagerando um pouco nas caretas, mas não é uma falha que atrapalhe o espectador a se conectar com sua personagem e se importar com ela. Além de acha-la extremamente engraçada, é claro.

O maior problema do filme é o seu terceiro ato, que faz com que o longa perca um pouco o foco da narrativa. Os objetivos dos protagonistas passam a não ser tão claros, o que em si não é um problema, mas o fato de mudarem de opinião sobre o que eles queriam para o fim do mundo soa um pouco forçado e farsesco. O envolvimento dos dois, que deveria ser algo muito natural, soa um pouco fora de contexto. Não que não dê pra acreditar no interesse de um para com o outro, mas fica uma dúvida: ‘e o objetivo inicial deles? Não importa mais?’ Salvo esse pequeno grande deslize, o filme cativa, faz rir e emociona.

A história de amor dos dois só se iniciou e ocorreu daquela maneira porque eles estavam diante do apocalipse. Tudo foi intenso, importante e eterno. Fez-me pensar no quanto o tempo que temos é importante, porque afinal, é dele que a vida é feita. Fez-me pensar também em como tenho gastado meu tempo e se essa forma tem sido digna da oportunidade que me foi dada.

Nota: 7,5

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

007 – Operação Skyfall (Skyfall)


007 – Operação Skyfall (Skyfall) - Reino Unido

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Neal Puvis, Robet Wade e John Logan

A decisão de escolher Daniel Craig para encarnar o mais famoso agente do Cinema dividiu opiniões. A minha sempre foi positiva. Acho que ele trouxe outra dinâmica ao personagem, bem diferente do seu antecessor, Pierce Brosnan. Craig nunca sorri, exala masculinidade e virilidade, e apresenta uma energia incrível nas cenas de ação. Sem mencionar seu carisma e talento na pele do agente. Depois do ótimo Casino Royale e do fraco Quantum of Solace, a franquia recupera o fôlego com esse excelente Skyfall.

Sam Mendes, experiente diretor de dramas ambiciosos como Beleza Americana, Estrada para perdição e Foi apenas um sonho, traz outra abordagem para o universo de Bond. Mendes investe mais no desenvolvimento dos personagens e nos relacionamentos entre eles, deixando um pouco de lado as sequências de ação ininterruptas. Não que o filme não possua ação. Muito pelo contrário. Já começa com uma sequência incrível envolvendo Bond, as ruas da Turquia, um HD que precisa ser recuperado e um trem. A ação continua com o tom mais realista e com edição e direção mais cruas, como nos dois longas anteriores, mas tem os seus toques de exagero e coisas “impossíveis” sendo realizados por Bond que de forma alguma afetam o filme. Apenas assumem o charme que a série sempre teve. Afinal, ele é o James Bond e já estamos acostumados a vê-lo fazendo coisas improváveis na tela. Depois dessa sequência, mergulhamos (literalmente) numa maravilhosa abertura gráfica, como é de costume na série, embalada pela excelente canção Skyfall.

O roteiro dá mais destaque ao relacionamento de Bond com M (a sempre soberba Judi Dench), o que traz uma dinâmica interessante ao longa, e faz com que possamos entender melhor o funcionamento da misteriosa agência MI6. Dado como morto, Bond se apresenta à M depois que a base do MI6 sofre um violento atentado terrorista. Depois de uma investigação mais minuciosa, descobre-se que o autor do atentado conhece o MI6 melhor do que eles esperavam. Bond é então enviado por M para descobrir a identidade do autor do atentado e recuperar o HD roubado, mesmo ela sabendo que Bond não se encontra fisicamente apto para a tarefa.

Mendes prova que pode sim dirigir um filme de ação com competência, e não somente dramas. Ele mantém o ritmo da narrativa sempre ágil e prende o interesse do expectador. É muito frequente acontecer em filmes de ação/espionagem não ficar muito claro para o expectador a complexa rede de interesses dos personagens, as reviravoltas da trama e os objetivos de cada um. Mas isso felizmente não acontece com Skyfall, graças à direção competente de Mendes e o roteiro sólido e bem escrito. Tomando a decisão de dar mais importância aos personagens e seus relacionamentos, Mendes acerta em cheio, mas ainda assim mostra que é versátil e pode dirigir sequências de ação como um diretor experiente no gênero, ou até melhor. Diferente de Michael Bay e outros do tipo, que apostam na câmera que treme o tempo todo e nos cortes com frações de segundo para conferir um tom de “ação frenética” que muitos gostam, mas que pra mim é um erro, Medes aposta na direção limpa e edição sem cortes muito rápidos. Decisão sábia. Eu consegui entender, acompanhar perfeitamente e me emocionar com a ação que ocorria na tela, o que é um feito digno de nota.

A trilha sonora pontua perfeitamente a narrativa. Toda vez que o tema clássico da séria surge, não tem como evitar a empolgação de antecipar a ação que está por vir. A direção de arte e os efeitos visuais são, como sempre se pode esperar da franquia, incríveis e eficientes.

Elogios devem ser feitos à atuação original e divertida de Javier Bardem como o vilão Raoul Silva. De longe um dos vilões mais memoráveis da série, Raoul impõe medo e respeito toda vez que aparece em tela, e sua dinâmica com Bond é imprescindível para nos convencer de suas motivações. Ele oscila entre o débil, o lascivo, genial e extremamente perigoso e desequilibrado. Seu diálogo com Bond é hipnotizante. Prova de que estamos assistindo ao trabalho de dois atores talentosos.

O longa não tem de fato uma bond girl como os anteriores, mas que não fez muita falta também. O centro da narrativa foi Bond versus M, Bond versus Raoul e Bond versus ele mesmo, o que já era coisa demais para o 007 lidar.

Espero que a série continue nesse mesmo nível de qualidade narrativa e dramática, se não ela corre o risco de se tornar apenas uma franquia de filmes de ação genéricos com um protagonista de nome famoso.


Nota: 9

O segredo de Vera Drake (Vera Drake)


O segredo de Vera Drake (Vera Drake) – Reino Unido – 2004

Direção: Mike Leigh

Roteiro: Mike Leigh

Vera Drake (Imelda Staunon) é uma senhora amável, que vive com sua família no subúrbio de Londres na década de 1950. Completamente devotada a cuidar de todos ao seu redor, ela vive para seu marido e os seus dois filhos adultos, além de se mostrar sempre sorridente e prestativa para seus vizinhos e amigos mais próximos. Não demora muito tempo de projeção e descobrimos outra atividade que ocupa o seu tempo: Vera realiza abortos em jovens sem recursos com uma bomba de água, desinfetante e sabão, num procedimento que ela chama de “ajudar jovens moças”.

A direção de Mike Leigh é muito hábil em estabelecer com pouco tempo de filme a personalidade de Vera Drake, sua rotina com sua família e amigos e o tom da narrativa. Conhecemos a família Drake com poucas cenas acompanhando as tarefas diárias de trabalho de seus membros e suas refeições em casa. Com planos muito fechados e constantemente enfocando seus atores de costas, Leigh consegue mostrar o quão pequeno é o apartamento dos Drake e o quão próximos e íntimos eles são uns dos outros, o que torna ainda mais chocante quando mais tarde o segredo de Vera é revelado. Outro ponto importante que Leigh faz questão de enfatizar é a frequência dos procedimentos de aborto feitos por Vera, sua precariedade, os riscos que oferecem às moças e a naturalidade com que ela os encara: como se tivesse cuidando de um doente ou uma criança machucada. Leigh faz questão de mostrar com detalhes cada um deles. E algo que achei genial foi o contraponto que Leigh estabelece com a água aquecida na chaleira tanto para o aborto quanto para o chá que Vera serve às suas visitas. Mostra com talento a ambiguidade das atividades de Vera. Com o mesmo sorriso ela serve chá para suas visitas e realiza um aborto.

O ritmo da narrativa jamais se perde porque Leigh conta a história num crescendo constante, causando sempre mais interesse no expectador sobre quais serão as consequências da conduta da protagonista. Dois dos momentos mais tocantes do longa (ele tem muitos) são o pedido de casamento de um amigo da família à Nellie, filha de Vera, devido à singeleza e compaixão que sentimos por aqueles dois personagens tão acostumados à ter tão pouco na vida e o momento em que Vera é surpreedida pelos policiais em sua casa diante de toda a sua  família. Apenas nos olhos da personagem conseguimos entender tudo que ela sente no momento. Mesmo considerando superficialmente que só estava “ajudando moças em necessidade”, ela no fundo sabia que estava fazendo algo que não era certo (ou dentro da lei). E então chegamos à atuação de Imelda Staunon.

Imelda carrega o filme nas costas e responde a toda responsabilidade que a tarefa exige com perfeição. O brilhantismo de sua atuação é fundamental para o sucesso do filme. Uma atriz medíocre ou menos talentosa poderia fazer com que sentíssemos ódio de Vera não deixando claras as suas complexas motivações. Imelda faz com que sintamos simpatia por ela apesar de sua conduta colocar em risco a vida das moças, além do que também causou em mim (algo que acho genial quando acontece) a curiosidade para saber mais sobre o seu passado e o que a levou a adotar essa conduta, visto que logo de início sabemos que ela não cobra pelo procedimento que induz o aborto. Imagino que ela deve ter passado pela mesma situação em que se encontram as moças quando era jovem. Ou tenha passado por algo parecido em sua família... Mas é só uma divagação sobre um personagem que conseguiu atingir essa complexidade.

O roteiro não entra no mérito da legalidade do aborto e muito menos na discursão religiosa ou moral de certo e errado. O tema está ali presente para o espectador lidar com ele e para transtornar a vida dos personagens. E Leigh não poupa nenhum deles. Todos sofrem as consequências dos atos de Vera de forma brutal, desde a moça que se submeteu ao aborto e quase morreu e sua mãe que é obrigada a depor na polícia até a família de Vera, que desmorona diante do fato de ter seu membro mais idôneo sendo levado para a cadeia e principalmente para Vera, que passa pela humilhação de ter sido desmascarada em seu lado mais sombrio até então desconhecido por quase todos. Outro momento extremamente tocante do longa é quando Vera se vê obrigada a contar para seu marido o porquê de estar presa. Não escutamos nenhuma palavra sair de sua boca, mas a vergonha e humilhação estão estampadas em seu rosto.

O segredo de Vera Drake é um grande filme, que além de arte e entretenimento de alto nível, ainda ganha pelo fato de levantar uma discursão sobre um tema que ainda precisa muito ser dissecado e debatido.

Nota: 10

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Intocáveis (Intouchables)


Intocáveis (Intouchables) – França – 2011

Direção: Olivier Nakache e Eric Toledano

Roteiro: François Cluzet, Omar Sy e Anne Le Ny

Intocáveis é uma grande prova de que o Cinema não precisa contar uma história complexa para ser ambicioso e tocante, ou muito menos precisa contar uma história simplória e vazia para entreter o público. Dois homens vindos de mundos tão diferentes se encontram em momentos críticos de suas vidas e acabam por mudar o rumo de suas histórias. Com essa premissa Olivier Nakache e Eric Toledano imprimem tanta autenticidade no seu filme que ele passa conceitos fortes, relevantes e emocionantes para o espectador que tornam a obra inesquecível.

Driss (Omar Sy) é um imigrante africano em Paris que tem ficha na polícia, é semianalfabeto, pobre, desempregado, desajustado na sua família e vive de previdência social. Philippe (François Cluzet) é um magnata milionário, crítico de arte e tetraplégico que perdeu a esposa ainda jovem e agora depende de seus empregados para fazerem tudo para ele. Entrevistando candidatos à vaga de seu assistente pessoal, Philippe conhece Driss que estava apenas interessado em pegar a assinatura de mais um empregador o dispensando para poder continuar a receber a previdência social. Philippe acha o senso de humor e personalidades de Driss interessantes e decide contratá-lo. O choque de cultura e realidades inicial é grande, mas os dois começam a desenvolver uma amizade peculiar que acaba por mudar a vida de ambos.

Apesar de tratar de temas pesados (um homem tetraplégico viúvo e um negro marginalizado pela sociedade) o filme encara tudo com leveza e bom humor. Se fosse um drama que as pessoas tivessem que sacar o lenço a cada dez minutos, não funcionaria tão bem como funciona. É hilário ver Driss achar um absurdo Philippe querer pagar 30.000 euros num quadro branco com uns borrões de tinta azul. A princípio Philippe não entende a ignorância de Driss relacionada à arte, mas depois acaba por ver do ponto de vista do amigo, quando este pinta um quadro tentando imitar este outro de 30.000 e pergunta a Philippe quanto ele pagaria. Depois, o melhor é ver Philippe tentando vender o quadro para um amigo como se fosse pintado por um artista renomado cobrando 11.000 euros com um sorriso sarcástico nos lábios.

Um ponto chave (divertido e lindo) da narrativa é a festa de aniversário de Philippe, no qual todos os seus parentes vêm para comemorar, ao som de uma orquestra de câmara em uma cerimônia formal. Philippe solicita um show particular pra ele e Driss no qual ele tenta ensinar apreciação para Driss, enquanto este faz comentários divertidos como “Bach devia usar essa para pegar garotas”. Por fim chega a vez de Driss mostrar sua música para o amigo, uma batida agitada que faz com que todos na festa dancem e se divirtam. Philippe simplesmente se deleita nesse momento.

Uma metáfora incrível no filme é a associação das dores noturnas de Philippe com o seu estado de imobilidade. É como se seu corpo sofresse pelo fato de estar paralisado e não poder proporcionar prazer de qualquer forma para o seu dono. E mal percebemos que Philippe não sente mais essas dores noturnas depois de certo tempo de convivência com Driss até que o segundo se ausenta de sua vida e as dores retornam.

Um aspecto importante da narrativa é a arte. Além de Philippe ser um crítico e entendedor, Driss passa a ver o mundo de outra forma em parte por causa da arte, ao mesmo tempo em que também Philippe passa a enxergar a própria arte diferentemente. Em certo ponto alguém diz: “sabe por que as pessoas investem em arte? Porque é a única coisa que elas de fato deixam.” Essa mudança de pensamento de Philippe é mostrada em uma sessão de ópera à que eles vão: assim que as cortinas se abrem e Driss vê um homem vestido de árvore cantando em tenor lírico, ele tem uma crise de riso que contagia o próprio Philippe, que não se importa de estar quebrando protocolos e incomodando os outros. Algo que para ele seria inaceitável tempos antes.

Ambos são homens estigmatizados pela sociedade. Um é negro, imigrante e de classe baixa, o que já é mais do que suficiente para leva-lo a sofrer pré-julgamentos. O outro é tetraplégico e solitário, o que faz com que sempre inspire a piedade dos outros. Ambos só queriam ser tratados como iguais pelo resto do mundo, sem rótulos e preconceitos. Philippe em certo momento diz para seu amigo que o repreende por ter contratado uma pessoa como Driss: “sabe por que eu gosto dele? Ele sempre se esquece de segurar o celular para eu falar. Ele esquece que eu preciso”.

A influência de um na vida do outros os tornou intocáveis pelo mundo exterior, como sugere o título. Philippe sai de um ponto na vida em que pensava “é mais difícil viver sem minha esposa do que nessa cadeira de rodas” para um momento em que começa a pensar que pode ser feliz novamente. Driss parte de uma vida sem nenhum futuro para uma situação em que se vê ajudando seu irmão adotivo mais novo.

As atuações são incríveis. Omar Sy cria um Driss espontâneo, criativo, bronco, mas ao mesmo tempo adorável, às vezes irritante, mas indispensável. François Cluzet encarna Philippe de forma muito contida e expressiva, protagonizando os momentos mais tocantes do longa. Pelo fato de estar interpretando um paraplégico, sua atuação fica muito limitada, mas tudo que precisamos saber sobre o personagem está em seus olhos.

Intocáveis tem que ser visto e revisto pelos amantes de Cinema. É simples, mas ambicioso, emocionante, porém divertido, realista e atemporal. Seres humanos são iguais em suas essências. É isso que o filme prova com brilhantismo artístico.

Nota: 10

P.S.: Existe um projeto de fazer um remake americano. Sempre acho remakes desnecessários.

Valente (Brave)


Valente (Brave) - EUA – 2012

Direção: Mark Andrews, Brenda Chapman e Steve Purcell

Roteiro: Brenda Chapman, Mark Andrews, Steve Purcell e Irene Mecchi

Com uma carreira quase impecável, os estúdios Pixar já provaram para o mundo que não é só de adaptações de histórias dos irmãos Grimm que vivem os filmes de animação. Sempre apostando em roteiros originais com personagens fora do convencional, John Lasseter e sua equipe já encantaram a todos com a trilogia Toy Story, Os incríveis, Up – altas aventuras, Ratatouille entre outros. Depois de um fraco Carros 2 (porque faze uma continuação?) esse novo Valente surge como um filme interessante, mas nada extraordinário como estamos acostumados a esperar do estúdio.

Princesa de um reino em um lugar e tempo desconhecidos para mim (imagino que seja uma Europa Medieval), Merida desde pequena mostra preferência por atividades como cavalgar, arco e flecha, entre outros tipos de desafios que envolvem a natureza e o seu físico, pouco convencionais para uma moça na sua posição de princesa e para a ambição de sua mãe, a rígida rainha Elinor, que tem planos maiores para a garota, que é formá-la para ser uma perfeita esposa e rainha para seus pretendentes. Diante de um casamente arranjado com um dos três príncipes nada interessantes para Merida (e para ninguém, eu acho), ela deseja apelar para a magia de uma misteriosa e divertida bruxa da floresta, que lhe oferece a opção de mudar a sua mãe para que esta deixe Merida fazer suas próprias escolhas. O plano não dá muito certo, transformando Elinor em um gigante urso, que passa a ser perseguido por seu pai, e as comitivas dos três reinos de seus pretendentes. Para piorar, se a situação de Merida e sua mãe não for solucionada até o por do sol do segundo dia depois do início do encanto, Elinor será um urso para sempre.

Merida é uma protagonista muito interessante. Espírito livre e vivaz, ela só ansiava por poder fazer suas próprias escolhas, o que demonstra que ela de certa forma era feminista (sem saber) e uma garota a frente de seu tempo. Só o fato de a Pixar criar um longa com uma protagonista mulher e feminista já é algo notável. Mas o triste é que o que é notável fica por aí. As possibilidades criadas pelo primeiro ato são desperdiçadas por uma história um tanto rasa e com uma resolução forçada, criada apenas para cumprir o papel.

O centro da narrativa a meu ver deveria ser o relacionamento de Merida e Elinor e os conflitos que a diferença de personalidades e de gerações entre as duas gera. E de fato o é. Mas o filme perde o foco ao longo da projeção apostando em gags de humor físico que são engraçadinhas e agradam ao público infantil que é o grande alvo do estúdio, mas as vezes soam forçadas e fora de hora. Outros dois aspectos muito desnecessários que poderiam ser retirados do filme sem nenhuma alteração são as luzes mágicas que surgem na floresta sempre que é conveniente e a subtrama envolvendo a bruxa e uma antiga lenda do passado que ressurge quase que nos minutos finais.

Elinor e Merida são mãe e filha que se amam, mas tem suas diferenças para acertar. As possibilidades de ideias para serem exploradas aí são enormes: feminismo, conflito de gerações, relacionamentos familiares, compreensão com as diferenças, tolerância, entre outros; mas o roteiro deixa tudo isso só na promessa. A densidade dramática fica por conta de poucas cenas no final no terceiro ato, e é quebrada por frases como “siga seu coração”, e outras coisas ao estilo Disney. Esse fato me deixa extremamente triste, visto que a Pixar sempre presou por passar mensagens relevantes apostando na força de suas boas histórias e de seus personagens bem desenvolvidos, sem apelar para lições de moral faladas na conclusão dos filmes.

Elogios devem ser dados à parte técnica, como sempre. O visual das “paisagens” e “locações” impressiona, assim como o figurino e aparência física dos personagens. Os rostos são extremamente expressivos e os movimentos parecem perfeitamente naturais. O único problema com o visual do filme (que foi comprovado pela opinião de outras pessoas, não só a minha) é a escuridão das cenas que se passam à noite ou no interior de algum ambiente escuro. É claro que o óculo 3D escurecem a fotografia, mas isso tem que ser levando em conta pelos realizadores. Parece um erro muito primário para mim. A trilha sonora encanta e traz o clima do tempo e do lugar. As duas ou três canções que tocam ao longo do filme passam um pouco despercebidas. Talvez seja porque eu as escutei em português, mas acho improvável. As melodias são genéricas e as letras... nem me lembro. Acho que o fato de o roteiro ter sido escrito por QUATRO pessoas e a direção ser assinada por TRÊS delas prejudicou o resultado final.

Mas nem de longe Valente é um filme que não merece ser visto. Na verdade, qualquer filme merece ser visto porque ele pode comunicar algo, por pior que seja. É a melhor animação do ano até o momento, o que não significa muito.

Nota: 7,0

P.S.: Adorei a companhia de Daniele, Vagner, Heitor, Sophia e Phillipe.

Retorno às atividades


Depois de um hiato bem grande sem postar aqui, estou voltando hoje com um texto sobre Valente. Espero que as postagens sejam mais frequentes (eu tenho essa dificuldade de manter o ritmo por conta do trabalho), porque sinto grande prazer em escrever sobre filmes/livros e ler os comentários dos leitores.
Abraços.
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