terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Magnólia (Magnolia)

Magnólia (Magnolia) – EUA – 1999

Roteiro: Paul Thomas Anderson


Direção: Paul Thomas Anderson


Não é fácil resumir o enredo de um filme como Magnólia. O longa dirigido pelo brilhante Paul Thomas Anderson narra a vida de vários personagens ao longo de um dia decisivo em suas vidas, em que são apresentados às situações críticas e tem que reagir diante delas.


O filme começa com um prólogo narrado em off de três situações reais que podem ser consideradas coincidências, mas que são estranhas demais e fazem qualquer um pensar que seja uma obra do “destino” ou mesmo do simples fato de que todas as ações têm suas reações, por mais estranhas e adversas que essas podem ser. É baseado nessa premissa, de que nada é por acaso, que Anderson desenvolve seu roteiro e dirige de forma genial e sensível a história desses nove personagens que a princípio não tem nada em comum, mas que tem suas vidas cruzadas em certo momento.


Já acostumado a trabalhar com elencos grandes, como em Boogie Nights, Anderson tem um grande talento para dirigir atores e para conferir profundidade a seus personagens, visto que cada um dos nove protagonistas se apresenta um ser humano complexo (como todos são na vida real) com várias dimensões em suas personalidades, não figuras unidimensionais que são tão comuns em muitos filmes.


Não dá pra descrever cada um deles, mas para se citar como exemplo, existe o homem que foi abandonado pelo pai quando criança e que teve que cuidar da mãe com câncer, e quando adulto, criou um programa de auto-ajuda para homens que querem aprender a conquistar mulheres interpretado perfeitamente por Tom Cruise. Temos também um homem idoso no leito de morte que se arrepende dos seus atos pregressos. Este mesmo homem tem uma esposa mais jovem (a sempre ótima Juliane Moore) que às vésperas de perder seu marido, percebe que o amava, visto que tinha casado por interesses financeiros; e assim temos mais uma imensa galeria de pessoas comuns, enfrentando seus medos e fantasmas do passado e as adversidades que este mesmo passado provoca no presente. E não é com estranheza que no clímax da narrativa, a cidade é submetida a uma chuva de sapos, fato raro de acontecer, mas que é possível, desempenhando assim um papel essencial no desfecho da narrativa. Destaque também para o anticlímax em que todos os personagens cantam a mesma canção em momentos críticos e decisivos do dia. Muito emocionante.


E se a direção de Anderson é perfeita, com seus planos-seqüência impecavelmente realizados e seu cuidado com o visual do longa, a montagem também desempenha papel muito importante. Afinal, contar a história complexa de nove pessoas em três horas de duração não e tarefa fácil, e o que vemos na tela acontece de forma muito fluída e causa muito impacto no expectador. Vale notar que quem realizou a montagem foi o próprio P. T. Anderson sob um pseudônimo. Outro aspecto vital para a veracidade do que vemos são as impecáveis atuações. Sensíveis ou mesmo caricatas, todas as performances são honestas e muitos convincentes.


Magnólia é um dos filmes mais importantes da década passada. P. T. Anderson mostrou que o ótimo Boogie Nights não era sorte de principiante.


Nota: 10

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Além da linha vermelha (The thin red line)

Além da linha vermelha (The thin red line) – EUA – 1998

Direção: Terrence Mallick

Roteiro: Terrence Mallick

O que é a Guerra? Porque ela faz parte da história dos seres humanos e até da natureza em si? O que ela causa na vida daqueles que participam dela? O que motiva soldados a lutar em uma batalha cuja causa não é deles? Um dia esse ciclo de violência e desumanidade terá fim? É tentando responder essas perguntas e muitas outras relacionadas à guerra que Terrence Mallick nos presenteia com esse sensível relato sobre em grupo de soldados na Campanha do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Além da linha vermelha não é um filme de guerra convencional, que se concentra nas batalhas. Mallick mantém o foco na mente de seus protagonistas, usando abundantemente uma eficiente narração em off. Aliás, o filme não tem nenhum personagem mais ou menos importante. Todos são protagonistas de suas próprias histórias e têm suas jornadas e emoções muito bem desenvolvidas pelo roteiro e direção. Aliás, o elenco é admirável. Conta com nomes como George Clooney, Sean Penn, Adrien Brody, Jim Caviezel, John Cusack, Woody Harrelson, Nick Nolte e John C. Reilly, entre outros.

Mas, mesmo se concentrando no emocional e no que a guerra representa para os soldados e membros do exército, Mallick impressiona nas cenas de batalha, extremamente bem dirigidas, com centenas de figurantes e várias ações acontecendo ao mesmo tempo na tela, ele consegue reger todo o espetáculo da forma que cause maior impacto no espectador e ao mesmo tempo ajude a contar algo sobre as pessoas que estamos vendo. Muitos filmes que tem como plano fundo a guerra são feitos, mas poucos são originais. Esse é um deles.

A linha vermelha a qual o título se refere é na verdade a tênue linha que separa os civis que esperam seus entes queridos voltarem da guerra daqueles desafortunados que participaram dela. Uma vez cruzada a linha, a humanidade e inocência dos soldados com relação ao mundo estão perdidas.

Mallick já provou ser um cineasta que não faz filmes por fazer. Ele conta uma história quando tem um motivo para fazê-lo.

Nota: 10

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Reparação (Atonement)

Reparação (Atonement)

Autor: Ian McEwan

Editora Companhia das Letras, 2002, 456 páginas

A história sobre uma família da aristocracia inglesa durante a Segunda Guerra Mundial de McEwan a primeira vista pode parecer um livro tradicional, que conta somente uma história (muito bem contada, por exemplo), mas à medida que as páginas se vão diante dos olhos do leitor e nosso conhecimento sobre aquelas vidas vai se aprofundado, percebemos que não estamos diante de uma obra literária qualquer, mas de um livro em que o autor brinca com a linguagem literária e manipula o intelecto e as emoções do leitor.

Briony Tallis é uma garotinha de onze anos, mimada e com uma imaginação acima da média, o que a impulsiona a escrever histórias fantásticas e peças para sua família além de torná-la uma ávida observadora do comportamento de todos ao seu redor. Num dia quente de verão de 1935 ela presencia três fatos estranhos envolvendo sua irmã Cecilia e o filho da empregada Robbie que a deixam chocada e com um julgamento sobre Robbie equivocado. Mas tarde, depois do jantar, quando um crime acontece, ela é levada a acreditar que Robbie é o culpado, o que atesta em depoimento. Sua decisão muda a vida do casal, e em conseqüência a sua, quando anos mais tarde, durante a Guerra, percebe o terrível erro que cometeu e tenta repará-lo.

O que mais me atraiu na escrita de McEwan é sua análise psicológica e emocional profunda dos personagens. Suas descrições dos pensamentos e motivações são muito marcantes e coerentes. O que é mais evidenciado ainda pelo fato de temos a oportunidade de presenciarmos o mesmo acontecimento por vários pontos de vista diferentes. Dá uma perspectiva completamente nova à história e humaniza todos os seus personagens, sem criar vilões ou mocinhos, apenas pessoas comuns sujeitas a errar ou acertar.

O livro poderia se tornar apenas uma viagem emocional desinteressante na mente dos personagens através de seus infortúnios, mas a habilidade narrativa de McEwan prende a atenção do leitor a cada página como eu poucas vezes fiquei preso a um livro. E a jornada que percorri lendo o livro foi, como alguns podem pensar, não apenas racional devido ao uso não-convencional da linguagem literária, mas foi também emocional, visto que me envolvi com os personagens, me importei com eles e sofri com suas deventuras.

Reparação é leitura super recomendada.

P.S.: Existe um filme de 2007 chamado Desejo e Reparação dirigido por Joe Wright que captura a essência da obra de McEwan e é arte à altura do livro.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A felicidade não se compra (It’s a wonderful life)

A felicidade não se compra (It’s a wonderful life) – EUA – 1946

Direção: Frank Capra

Roteiro: Philip Van Doren Stern e Frances Goodrich

De tempos em tempos algum cineasta competente realiza um filme do tipo, como eu costumo dizer, “sobre a vida”. Um filme que trata do sentido de nossas existências e do porque de estarmos aqui neste mundo, e o que realmente importa aqui. Bons exemplos desses filmes sobre “a vida” são Contato (1997), As Horas (2002), Ao amanhecer (2007), Um sonho de liberdade (1994), entre outros. E agora que vi este fantástico A felicidade não se compra de Frank Capra o coloco no topo da lista.

George Bailey (James Stewart) é um homem que nunca quis seguir a carreira de banqueiro do seu pai. Ele queria sair de sua pequena cidade Bedford Falls para conhecer o mundo. Porém, por causa da necessidade de todos a seu redor devido a opressão causada pelo manipulador Sr. Potter que possuía quase todos os negócios da cidade e explorava os moradores, George se viu na obrigação de ajudar aquelas pessoas com seu banco e seu esquema de empréstimo para construção da casa própria. Por isso ele nunca conseguiu realizar o seu sonho, até que pensou em se matar por causa de uma dívida adquirida por acidente. Foi quando recebeu uma mãozinha de um anjo que veio do céu para ajudá-lo com o objetivo de ganhar sua promoção e suas asas.

Capra desenvolve a história com um tom muito leve e descontraído, como um ótimo “filme de Natal”, mas isso não significa que a narrativa não tenha seus momentos tensos e dramáticos. Os personagens são trabalhados com muito cuidado pelo roteiro, sem que nenhum deles se torne uma caricatura ou desumano, e sim pessoas comuns, com qualidades e defeitos e com facetas diferentes em suas personalidades, passíveis de mudança. Assim o amadurecimento de George ao longo da história com sua mudança de paradigmas e de sentido que dava à vida é completamente convincente. Principalmente com a ajuda do anjo da guarda atrapalhado que tem.

Valores profundos como amizade, amor, família e lealdade são passados de forma muito coesa e sem soar como liçõezinhas de fim de filmes hollywoodianos. Quando o anjo mostra a George como seria o mundo se ele não tivesse nascido, não tem como não se emocionar e aprender algo muito simples e profundo a respeito da existência: a nossa vida influencia outras pessoas tão intensamente e em tantos níveis diferentes.

A felicidade não se compra é um dos melhores Christmas movie de todos os tempos. Deve contar no currículo de todos que gostam de Cinema, da vida e de se emocionar com boas histórias.

Nota: 10

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2)

Atividade Paranormal 2 (Paranormal Activity 2) – EUA – 2010

Direção: Tod Williams

Roteiro: Michael R. Perry

Os acontecimentos desse novo Atividade Paranormal 2 se passam antes do período narrado no primeiro filme, sucesso de bilheteria e bastante eficiente como filme de suspense e terror. Kristi e sua família voltam de férias e encontram sua casa revirada como se tivesse sido invadida por um ladrão, mas nenhum objeto foi roubado, com exceção de um colar que sua irmã Katie (do primeiro filme) tinha dado de presente e as portas não tinham sido arrombadas. Assustados com o fato de ter sua casa invadida, o casal resolve colocar câmeras de segurança por toda a casa que gravam 24 horas por dia tudo que acontece. Depois disso, os moradores da casa começam a notar coisas entranhas acontecendo na casa, encaradas primeiramente com ceticismo por Daniel, marido de Kristi, mas que depois se tornam sérias demais para serem ignoradas.

Essa continuação assume a mesma lógica do primeiro, mostrando as atividades causadas pelo espírito maligno de forma bem gradativa, causando assim uma tensão crescente. E a direção de Williams é muito eficiente em assustar a platéia e causar medo. Assim, quando vemos certa personagem ser arrastada pelo espírito para o porão, sabemos o mal que aquilo representa. E a atuação do elenco é bastante eficiente, dando veracidade àquelas pessoas comuns que se vêem envolvidas em algo sobrenatural que não conseguem combater.

O roteiro só erra um pouco em deixar o ritmo cair nos primeiros 40 minutos de projeção, deixando a história se tornar um tanto monótona pela falta de acontecimentos, sempre mostrando as imagens das câmeras de segurança em que nada acontece. Mas acerta em explicar e dar mais complexidade ao primeiro filme.

Não sendo muito original em relação ao primeiro, essa continuação nunca deixa de surpreender. E faz também muito bom uso da câmera subjetiva introduzida nos filmes de terror através do ótimo A Bruxa de Blair. A seqüência final é de tirar o fôlego.

Nota: 7

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 (Idem)

Tropa de Elite 2 (Idem) – Brasil – 2010

Direção: José Padilha

Roteiro: Bráulio Mantovani

Muitos anos depois dos acontecimentos narrados no excelente primeiro filme de 2007, Capitão Nascimento (Wagner Moura) agora, depois de ser tirado do comando do BOPE devido a uma invasão mal sucedida em Bangu Um, passa a ocupar o cargo de sub-secretário de segurança do Rio de Janeiro e enfrentar outro inimigo, como diz o subtítulo: os políticos. Ele descobre um esquema de corrupção nas milícias da polícia militar nas favelas apoiado pelo governador e por deputados. Ao mesmo tempo Nascimento tem que lidar com problemas com seu filho adolescente e sua ex-esposa, casada com um deputado defensor dos direitos humanos.

O primeiro filme já era muito eficiente em abordar a luta do BOPE contra o tráfico de drogas nos morros do Rio. Mas o roteiro deste segundo vai mais fundo no problema social e político da cidade. Capitão Nascimento se vê envolvido em um esquema muito maior do que ele imaginava. O “Sistema” como ele mesmo diz. As milícias da PM extorquindo os moradores da favela, o dinheiro da corrupção sustentando campanhas políticas, deputados corruptos e assassinos, jornalistas assassinados e outras injustiças que afetam a população e os líderes honestos em vários níveis.

E se o roteiro é brilhante em abordar todas as facetas da corrupção do sistema, também acerta em investir no impacto emocional desse sistema na vida daquelas pessoas. Capitão Nascimento não consegue manter nenhum tipo de relacionamento pessoal mais profundo, visto que já tinha perdido seu casamento e agora não consegue manter seu filho por perto, o que o afeta profundamente. E até mesmo seu amigo Matias o considera um traidor. E a performance de Wagner Moura se mostra essencial para o sucesso do filme. Sem exibir um único sorriso ao longo de todo o filme, Nascimento é um homem totalmente dedicado ao seu trabalho e à causa por que luta. Ele carrega em seu próprio rosto o peso da vida que leva. E não só Moura se sai bem, do elenco. Todos oferecem performances muito intensas e eficientes.

E além de um roteiro complexo e profundo, ainda sobre tempo para as seqüências de ação, muito bem realizadas por Padilha e sua equipe. A cena de invasão da favela pelo BOPE é impressionante. A realização estética (movimentos de câmera e enquadramentos) e a montagem são dignos de qualquer filme da trilogia Bourne.

Aliás, o cuidado visual de Padilha com o filme é muito maior neste longa do que no de 2007. Sua câmera se mantém sempre trêmula durante os diálogos, mostrando a instabilidade daquelas vidas e trazendo um tom documental do filme, filmando as cenas mais simples e introspectivas com apenas uma câmera, que acompanha os personagens aonde eles vão. E o plano final impressiona pela qualidade e significado. Durante o depoimento do Capitão Nascimento na CPI, a câmera sai de um plano fechado no seu rosto e vai se afastando no salão num traveling pra trás que mostra todos os políticos no salão e os civis no fundo. Mostra como ele, Nascimento, apenas um indivíduo, estava envolvido em algo muito maior do que ele próprio.

O impacto social e emocional do filme ficam na mente depois que os créditos sobem na tela. Tropa de Elite 2 é um filme que deve ser visto, discutido e divulgado. Além de ótimo entretenimento e recheado de bordões e ótimos diálogos como o primeiro filme, tem grande importância política e social. Fico feliz em saber que a bilheteria já é umas das maiores de um filme nacional.

Nota: 10

terça-feira, 26 de outubro de 2010

À espera de um milagre (The Green mile)

À espera de um milagre (The Green mile) - EUA - 1999


Direção: Frank Darabont


Roteiro: Frank Darabont, baseado no livro de Stephen King


John Coffey (Michael Clarke Duncan) é um homem negro, pobre, com mais de dois metros de altura condenado à morte pelo estupro e assassinato de duas meninas em 1935. Na cadeia à espera da sentença, ele conhece Paul Edgecomb (Tom Hanks), começa uma amizade e ambos acabam se ajudando, em grande parte devido ao miraculoso poder de cura de John, que ajuda Paul com sua séria infecção urinária e também porque um ajuda o outro a crescer enquanto pessoa. Diante disso, o policial Paul decide investigar a fundo o assassinato das garotas, por acreditar que John não é culpado, e ao mesmo tempo, arquiteta um plano para ajudar a esposa de seu melhor amigo que está com um tumor no cérebro a ser curada por John.



Depois de dirigir o maravilhoso Um sonho de liberdade em 1994, também baseado em um livro de Stephen King, Frank Darabont mais uma vez adapta uma obra de King com um resultado muito interessante. A história possui a mesma intensidade emocional do longa de 1994, conseguindo contar uma história forte, mesmo com seu tom fantasioso e sobrenatural, nunca deixamos de nos importar com os seus personagens e com as situações por que passam. A injustiça à que John está submetido, a falta de caráter e odiosidade do oficial protegido, a luta de um homem para salvar sua esposa, a jornada emocional e de crescimento pessoal pela qual Paul passa, o companheirismo de seus amigos, e um tema distante pra nós, mas que traz muita reflexão para nossa existência: a imortalidade e o que ela representaria para os seres humanos. Existem esses e tantos outros arcos dramáticos no longa, todos intensos e muito bem desenvolvidos.


As performances de Hanks e Duncan são o fio condutor da narrativa. O primeiro, intenso e extremamente talentoso, consegue exprimir sentimentos e reações apenas com os olhos. Duncan, por sua vez, encarna John com uma inocência e senso de caridade impressionantes. Ver um homem de dois metros de altura chorando compulsivamente poderia soar ridículo, mas não é. Os momentos em que John surge na tela são sempre ternos e sensíveis. É inevitável a simpatia imediata com o personagem. Todo o elenco quadjuvante tem seus momentos em tela e se sai muito bem.


Pra quem se interessa pelas adaptações cinematográficas das obras de Stephen King, vale conferir também, além deste À espera de um milagre e Um sonho de liberdade, O Nevoeiro de 2009, também dirigido por Frank Darabont.


Nota: 9

A queda - as últimas horas de Hitler (Der Untergang)

A queda - as últimas horas de Hitler (Der Untergang) – Alemanha/Itália – 2004

Direção: Oliver Hirschbiegel

Roteiro: Bernd Eichinger, baseado no livro de Joachim Fest

Os russos tomam Berlim em abril de 1945 deixando o exército alemão em pânico. Mesmo sabendo que a derrota está próxima, Hitler (Bruno Ganz) e seus principais assessores planejam ações militares para eliminar o inimigo. O Führer está assustado, Eva Braun, sua namorada e depois esposa mantém a moral em alta dançando e cantando com os oficiais. Goebbels e sua mulher trazem os seis filhos na esperança de um milagre. O 3º Reich está com as horas contadas. A história é contada do ponto de vista da nova secretária do Führer, Traudl Junge (Alexandra Maria Lara), uma jovem de Munique, de 22 anos, alheia a ideais políticos, apenas feliz por estar servindo ao grande líder.

A roteiro de Eichinger e a direção de Hirschbiegel acertam por apostarem na sensibilidade emocional da história, além dos ideais políticos. O fato de grande parte do longa ser visto do ponto de vista da inocente Traudl colabora ainda mais para o impacto emocional do filme. A sua falta de engajamento político e até mesmo ingenuidade diante dos fatos que presenciava fazem com que sua personagem ganhe nossa simpatia, e ao mesmo tempo faz com que Hitler se torne humano aos nossos olhos, mesmo conhecendo toda sua história. E é aí que se destacam as performances do maravilhoso elenco. Bruno Ganz encarna Hitler com uma força e profundidade impressionantes, fazendo com que os momentos em que Hitler explode devido a sua situação crítica e às notícias que chegam sejam impressionantes e dignos de medo, e também os momentos em que ele exibe sua humanidade e até mesmo temor diante do inevitável. E acima de tudo, sua inabalável fidelidade aos seus ideais políticos, mesmo sendo abomináveis aos nossos olhos, sua firmeza até o fim é admirável.

O filme conta com um elenco de apoio admirável, ótimos figurinos e direção de arte que recriam os anos 40 de forma muito convincente. A fotografia e o cuidado de Hirschbiegel com a estética do filme também são impressionantes.

Todos esses adjetivos fazem com que A queda - as últimas horas de Hitler seja um filme importante do ponto de vista político e social e emocionalmente impactante.

Nota: 10

domingo, 3 de outubro de 2010

Orgulho e Preconceito (Minissérie da BBC – 1995)

Direção: Simon Langton

Roteiro: Andrew Davies

Quem me conhece sabe da minha admiração pela obra da inglesa Jane Austen e o meu interesse nas adaptações cinematográficas ou televisivas de seus livros. Especialmente sua obra prima Orgulho e Preconceito.

Meu primeiro contato com a história de ódio e amor de Mr. Darcy e Elizabeth Bennet foi ao assistir o soberbo filme de 2005 dirigido por Joe Wright. Depois disso, comprei o livro e li. Em seguida, assisti ao filme mais algumas vezes, o que só fez crescer minha admiração pelo trabalho de Wright e sua equipe. Agora, acabo de assistir a cultuada minissérie de 1995 estrelada por Colin Firth e Jennifer Ehle. Achava que não ia gostar tanto quanto o filme, mas fiquei muito surpreso positivamente com o que vi, e comparações tornam-se desnecessárias, visto que o Cinema e a TV são mídias tão diferentes e exigem tratamentos do material original também diferentes.

O maior feito da minissérie e também do filme de 2005 foi conseguir capturar a alma e o tom exatos do livro de Austen, considerada a primeira romancista inglesa moderna. O livro, ao abordar a história de pessoas simples e comuns, com suas desventuras cotidianas em suas vidas sem sentido é uma grande crítica a sociedade e aos costumes da época. O humor é perspicaz, a construção dos relacionamentos muito bem estabelecida de forma racional, diferente do Romantismo e a análise e desenvolvimento da personalidade dos personagens é brilhante. Austen era uma grande observadora, como dizem.

Para os jovens rapazes em posse de uma boa fortuna, sua única preocupação na vida era administrar seu dinheiro herdado e conseguir uma boa esposa. Para as jovens moças, seu único propósito era encontrar esses rapazes. E para algumas mães, como no caso da hilária Sra. Bennet, conseguir casar suas cinco filhas solteiras. É em torno disso que Austen desenvolve sua história através do ponto de vista feminino (e porque não dizer feminista?), mostrando o pouco poder de escolha que as mulheres tinham na época, e como a felicidade no amor dependia tão pouco da vontade de suas heroínas.

A direção de arte da minissérie é impecável, com cenários maravilhosos e muito bem decorados com ótima reconstrução de época. As locações são incríveis (nunca vou me esquecer dos campos de Pemberley) e figurinos excelentes. A trilha sonora capta perfeitamente o espírito da Inglaterra Vitoriana. E não tem como falar das atuações de todo talentoso elenco, principalmente do casal protagonista. Firth e Ehle são os perfeitos Mr. Darcy e Elisabeth, sempre expressivos, carismáticos e convincentes.

O roteiro se mantém muito fiel ao livro e se desenvolve de forma fluída. A direção de Langton é impressionante, fazendo com que, às vezes, eu me esquecesse que estava assistindo a uma minissérie e não a um filme, com seus movimentos de câmera elegantes e inventivos (surpreendentes para uma produção televisiva) e sua agilidade em contar a história, sem deixar o ritmo e o interesse do espectador diminuirem em momento algum.

Por fim, a minissérie é uma obra de arte à altura da obra de Jane Austen. Como disse à minha irmã Natália: “Eu gostaria de ter eternos episódios semanais com essa qualidade artística sobre a vida daquelas pessoas para poder acompanhar. Seria ótimo.”

Nota: 10

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Plano B (The back-up plan)

Plano B (The back-up plan) – EUA – 2010

Direção: Alan Poul

Roteiro: Kate Angelo

Depois de muitos namoros mal sucedidos, Zoe (Jennifer Lopez) se cansa de esperar pelo cara certo e resolve fazer uma inseminação artificial com medo de perder a sua chance de ter filhos. O que ela não esperava era encontrar o amor de sua vida, Stan (Alex O'Loughlin) no mesmo dia em que engravida. É então que ela tem que lidar com a gravidez, as mudanças que ela traz, o início conturbado do namoro e a dúvida da aceitação ou não de Stan devido sua situação.

Como já disse antes aqui no blog, de comédias românticas o mundo está cheio, mas parece que sempre há espaço para mais uma. É o caso de Plano B. Não existe nada que se destaque muito no longa relacionado a premissa, narrativa ou originalidade. Mas o que faz com que eu tenha saído da sala de Cinema satisfeito com o que eu acabara de ver? Acho que a resposta é que esse é o típico fell good movie.

Mesmo não sendo original, a historinha é bem conduzida pelo roteiro e pela direção. Os conflitos entre o casal são bem desenvolvidos e plausíveis. Alguns momentos que me incomodaram foram cenas em que Poul tenta fazer comédia e que soam meio forçados, como o cachorro que come o teste de gravidez, e a cena do parto de uma colega de grupo de Zoe que tinha tudo para ser hilária, mas acaba sendo de mau gosto.

O charme do filme fica por conta mesmo dos protagonistas. Jennifer Lopez, normalmente inexpressiva, aqui exibe um carisma e um talento para comédia que eu nunca vi antes em seus filmes. E o novato Alex O'Loughlin, desconhecido pra mim é o perfeito galã desse tipo de filme: bonito, engraçado e romântico.

Com um desfecho previsível que deixa os espectadores satisfeitos, Plano B é uma boa opção para diversão sem compromisso.

Nota: 7

Montagem Musical

Incrível montagem muito bem editada com grandes musicais de Cinema. Vale a pena conferir. O final é fantástico! Link aqui.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Origem (Inception)

A Origem (Inception) – EUA – 2010

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Quando saí da sala de exibição de A Origem a alguns momentos atrás, o pensamento que cruzou minha mente foi: “É por causa de filmes assim que sou apaixonado por Cinema”. Esse pensamento foi fruto da experiência que tivera durante as duas horas e meia anteriores em que eu havia mergulhado no subconsciente daqueles complexos personagens que povoam o universo criado pelo talentoso Christopher Nolan.

A Origem conta a história de Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), ladrão incomum que ganha a vida junto de seus parceiros de crime roubando informações do subconsciente alheios através de sonhos manipulados por ele e sua gangue. Sua habilidade o tornou famoso no ramo da espionagem industrial, mas também tirou dele tudo o que possuía. Desafiado por um trabalho diferente de tudo o que já fez, Cobb conhece a jovem arquiteta Ariadne (Ellen Page) que se junta a seu grupo. Junto com esse novo trabalho, Cobb tem que enfrentar seus traumas do passado apresentados pelo seu próprio inconsciente.

Dono de uma carreira invejável, Nolan já brindou o mundo com filmes que desafiavam as estruturas narrativas convencionais como Amnésia e O Grande Truque, e os mais recentes Batman Begins e Batman – o cavaleiro das trevas. Todos excelentes e obrigatórios. Acusado de ser um cineasta muito racional, não há como discordar disso em certos aspectos, porém, por mais racional que o roteiro de A Origem seja, as motivações emocionais dos seus personagens são o fio condutor da narrativa. E não foram poucas vezes que me emocionei ao longo do filme. Primeiro, por causa da jornada pessoal dos personagens e segundo, por estar testemunhando uma obra de arte de tão alto nível.

O roteiro de Nolan é simplesmente perfeito. Apesar de altamente complexo, ele não pára a história para um diálogo no estilo “momento explicativo” como muitos diretores fazem, duvidando da inteligência do expectador. A história, com toda a sua complexidade e níveis de realidade diferentes, flui de forma coesa e compreensível. Grande parte desse mérito é devido, também à genial montagem. E se o roteiro de Nolan é racional como dizem e precisa de uma demanda considerável de neurônios para ser compreendido, é na mesma medida tocante, porque os personagem de DiCaprio, Cillian Murphy e Marion Cotillard, principalmente, têm motivações profundas de suas ações. E isso não é só uma ferramenta do roteiro para conferir profundidade aos personagens de propósito. Toda a história é impulsionada para frente por causa dessas motivações. A história é a jornada emocional dessas pessoas, antes de qualquer coisa.

E se o roteiro de Nolan é genial, o mesmo pode ser dito com relação à sua direção. Ágil, precisa e muito coesa, a estrutura da narrativa é perfeita. Como já disse, mesmo com toda a complexidade da premissa, todos os elementos da história são bem amarrados e nenhuma informação ou fala é desperdiçada. Se escutarmos um personagem dizer que “não gosta de trens”, isso com certeza irá desempenhar um papel importante mais à frente na história. O filme mistura ficção-científica, ação, suspense e drama. Pode ser considerado um filme de gênero, mas como o longa passeia por esses gêneros que eu citei, prefiro apenas chamá-lo de um ótimo filme. E mesmo que alguém queira encaixar o longa de Nolan num desses gêneros, ele se sairá bem em qualquer um deles. Como ficção científica é um exemplar raro porque apresenta uma idéia nova e desenvolve seu conceito ao máximo e de forma inteligente. Como filme de ação, é de tirar o fôlego. Não digo isso como se fosse uma frase clichê de capa de DVD, mas foram várias a vezes que eu respirei aliviado depois de uma seqüência de ação soberbamente dirigida por Nolan. E não me sai da mente uma cena de luta de um personagem num hotel em que o eixo do prédio é deslocado várias vezes. Incrível. Nunca vi nada parecido no Cinema antes. Como drama, já disse que o filme se baseia nos sentimentos dos personagens. Não existe outra motivação que conduza a história. Ver um pai que não consegue ver o rosto dos filhos dá um nó na garganta de qualquer um.

E se Nolan não tivesse a colaboração de um elenco de dar inveja a qualquer diretor, não conseguiria ir muito longe. DiCaprio, depois de estrelar este ano Ilha do medo, nos brinda com seu talento mais uma vez, encarnando um homem transtornado e devastado pela culpa. Ellen Page dá vida a arquiteta Ariadne com o talento habitual. Marion Cotillard, uma das minhas atrizes favoritas da atualidade, em seus poucos momentos em cena consegue capturar a atenção do espectador com sua intensidade e presença. E o sempre carismático Jaseph Gordon-Levitt é Arthur, o parceiro de Cobb. Todo o elenco de apoio tem seus momentos em tela e se sai muito bem.

A parte técnica do longa é impecável. Os efeitos visuais são impressionantes, sempre comedidos e que têm como único propósito ajudar a contar a história e não ser o motivo para ela como em Transformers. Muito convincentes, eles trazem toda a idéia de estar visitando o subconsciente de alguém. É a visão de Nolan de como o mundo dos sonhos deve parecer. Impressionante. A trilha de Hans Zimmer preenche a ação de forma às vezes comedida, às vezes grandiosa. E a estupenda direção de arte ajuda a contar e história com as imagens. A concepção visual do filme é excelente.

A Origem é um filme que merece ser visto e revisto. Espero que a Academia não cometa o mesmo erro que cometeu com O cavaleiro das Trevas e dê a Nolan e seu time o reconhecimento que merecem.

Nota: 10

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Salt (Idem)

Salt (Idem) – EUA – 2010

Direção: Phillip Noyce

Roteiro: Kurt Wimmer e Brian Helgeland

Espionagem durante a Guerra Fria foi um tema que já rendeu ótimos filmes de ação e suspense. Mas nos dias atuais, muito anos depois do fim da União Soviética, esse tema parece um pouco forçado e não causa mais o mesmo impacto. Foi o meu sentimento depois de assistir a Salt.

O filme é sobre Evelyn Salt (Angelia Jolie), agente da CIA que durante um interrogatório a um suposto espião russo, tem seu nome revelado por este e sua integridade posta em prova, visto que o homem sugeriu (ou revelou) que ela também era uma espiã russa. É neste jogo de ambigüidade e incerteza que o filme se desenrola. Salt fugindo de seus colegas de trabalho que duvidam de sua palavra enquanto ela tenta resgatar seu marido e depois, quando entra em uma vingança pessoal.

Como exemplar de filme de ação, Salt funciona muitíssimo bem. As seqüências de fuga da heroína são muito bem dirigidas e capturam a atenção do espectador. Jolie exibe uma ótima energia em cena e o talento habitual. Na verdade, o filme todo se baseia em seu carisma e na segurança de ter a maior estrela do Cinema atual como protagonista. Jolie, sensual e forte como sempre, consegue arrancar suspiros dos marmanjos até mesmo quando precisa inutilizar uma câmera de segurança, quando retira sua minúscula calcinha preta de renda e atira sobre o aparelho.

E não é só de seqüências de ação e fuga que Salt é feito. Os momentos mais introspectivos, que envolvem Salt, sua vida pessoal e suas motivações são muito convincentes. E aí, o talento de Jolie e o roteiro, despretensioso, mas nem tanto, entram em ação. A reviravolta da trama é um pouco previsível, mas não deixa de surpreender pela coragem da protagonista e pelo fato de termos nos identificado com ela em sua jornada ao longo do filme.

Por fim, Salt é diversão garantida, mas não é nem de longe um filme relevante.

Nota: 8

domingo, 25 de julho de 2010

Shrek para sempre (Shrek forever after)

Shrek para sempre (Shrek forever after) – EUA – 2010

Direção: Mike Mitchell

Roteiro: Josh Kausner e Darren Lemke

Parece que foi ontem o ano de 2001, quando passou a fazer parte das nossas vidas um ogro grosseiro, porco e sem amor na vida (um ogro pode ser diferente?) que conhece uma princesa, se apaixona e faz amigos no meio do caminho. Tudo com muito bom humor, sátira aos contos de fada e ao Cinema e toques de sensibilidade e Inteligência. Nunca tinha se visto uma animação igual. Mantendo o mesmo nível de qualidade, o segundo longa até supera o primeiro em alguns aspectos. O terceiro já surgiu um pouco longo demais e não tão genial. É uma pena que a série tenha que acabar com esse pedestre Shrek pra sempre.

O filme perdeu todo o charme a criatividade dos dois primeiros. Foram poucas às vezes em que eu ri de fato durante a sessão. O que é um contraste, visto que nos dois primeiros eu rei bastante, digo bastante, no cinema ou em casa.

A história é sobre a rotina em que a vida de casado de Shrek se transformou. Cansado dos filhos, amigos e das cobranças de Fiona, Shrek faz um pedido para que sua vida voltasse a ser o que era que se realiza. É então que entra em uma realidade alternativa, em que seus amigos não o conhecem, não é casado com Fiona e um sujeito excêntrico e malvado é o rei. Consciente da besteira que fez, tenta desfazer tudo pra que sua vida volte ao que era antes.

É com essa premissa sem graça e batida que o filme se desenrola. Shrek, que sempre protagonizou ótimos momentos em cena está sem graça e desinteressante. Quem tem os melhores momentos são os sempre ótimos Burro e o Gato de botas. Até mesmo o vilão deste quarto capítulo não tem o mesmo “carisma” do Lord Farquad ou da Fada Madrinha.

Outro erro gravíssimo foi não incluir no fim um número musical, que nos dois primeiros rendeu momentos inigualáveis.

Se este tivesse sido o primeiro capítulo da série, Shrek com certeza não seria conhecido por nós como é hoje.

Nota: 6

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cantando na chuva (Singin’ in the rain)

Cantando na chuva (Singin’ in the rain) – EUA – 1952

Direção: Gene Kelly e Stanley Donen

Roteiro: Adolph Green e Betty Comden

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são dois astros do cinema mudo. Com o advento do som nos filmes (the talking pictures, como eles dizem), os dois têm que adequar as suas carreiras para se manterem no mercado. O problema é que Lina tem uma voz irritante e é consideravelmente estúpida e egoísta. É nesse contexto que Don, seu melhor amigo Cosmo Brown (Donald O’Connor) e sua nova namorada Kathy (Debbie Reynolds) têm a idéia de transformar o seu novo filme fadado ao fracasso em uma comédia musical.

Estabelecendo o ritmo divertido desde a hilária seqüência inicial, quando Don conta toda a sua trajetória para os fãs, o filme já mostra a que veio. Personagens carismáticos, história simples, singela e comovente. Além de possuir um roteiro sólido, inteligente e contar uma boa história de um passado tão recente na época, a transição do cinema mudo para o falado, o filme se baseia mesmo é no charme e carisma de seus protagonistas.

Gene Kelly, que construiu uma carreira baseada em seu talento para dança, oferece aqui uma de suas melhores performances. Don é talentoso, companheiro, divertido e romântico. Os ingredientes certos para o ator criar o seu personagem inesquecível. Donald O’Connor encarna um Cosmo Brown enérgico e hilário, enquanto Kathy é a perfeita heroína nas comédias musicais: Bonita, alegre e inocente.

O filme ganha força mesmo é nos números musicais. Cheios de cores, músicas cativantes e coreografias enérgicas e hipnotizantes, eles exploram todo o talento dos atores e as possibilidades cômicas e românticas do roteiro. Destaque para a seqüência final, The Brodway Melody e para a maravilhosa cena de Don cantando e dançando na chuva depois de ganhar um beijo de sua namorada.

Cantando na Chuva é um filme que ganha um espaço cativo no coração de todos aqueles que têm a oportunidade de conhecer Don, Cosmo e companhia. Exemplo máximo da Era de ouro de Hollywood.

Nota: 10

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Poderoso Chefão Parte III (The Godfather Part III)

O Poderoso Chefão Parte III (The Godfather Part III) – EUA – 1990

Direção: Francis Ford Coppola

Roteiro: Mario Puzo e Francis Ford Coppola, baseado em livro de Mario Puzo

Essa terceira parte da mais famosa trilogia de Hollywood encerra com chave de ouro a saga da família siciliana Corleone, chefiada pelo desumano e complexo Michael Corleone (Al Pacino). Como disse no meu texto sobre o primeiro filme, os três longas tratam da ascensão e queda de Michael, acompanhando sua trajetória desde o início, quando negava a sucessão dos “negócios" do pai Vito Corleone (Marlon Brando), depois quando assumiu os negócios da família e viu seus entes queridos sofrerem danos por causa da suas escolhas até esse terceiro longa, quando vemos Michael passar adiante a liderança da família e ao mesmo tempo, não conseguir se livrar do peso de ter vivido uma vida fora da lei.

No longa, muitos anos se passaram desde a segunda parte. Michael agora é um senhor por volta dos seus sessenta anos que perdeu a sua esposa e o contato com seus filhos. Tenta abandonar todos os negócios ilícitos que mantinha até então e ser reconhecido pela Igreja, pois percebe que perdeu quase tudo com o que se importava na vida, está doente e carrega muitos “pecados” consigo. Uma guerra começa quando o impetuoso Vinni (Andy Garcia), seu sobrinho passa a trabalhar para Michael e entra em conflito com Zasa (Joe Mantegna) que domina as áreas da cidade onde uma vez Vito Corleone dominava. Recebendo um pedido de doação no valor de seiscentos milhões de dólares da Igreja, Michael exige o controle da empresa Imobiliare, o que deixa alguns membros do clero contrariados por duvidarem da sua conduta.

Com a talento habitual, Al Pacino mais uma vez oferece uma performance memorável. Extremamente contido, porém muito expressivo, Michael explode algumas vezes, e então nós entendemos o perigo e a ameaça que ele representa para as pessoas ao seu redor, como sua esposa Kay (Diane Keaton) e filhos, principalmente. O momento de sua confissão com o bispo é extremamente tocante, porque pela primeira vez durante os três filmes, vemos Michael fragilizado, tanto fisicamente como emocionalmente. As demais atuações são brilhantes, como nos anteriores. A exceção fica por conta de Sophia Coppola, inexpressiva e sem carisma algum. Mas seu tropeço e falta de talento não prejudicam o resultado final do filme.

O roteiro e a direção brilhantes dão a mesma profundidade e intensidade dramática à saga dos Corleone que os capítulos anteriores possuem. Ver um ser humano perder sua humanidade é extremamente triste. E principalmente ver a sua vontade e tentativa frustrada de abandonar o crime e sua vida fora da lei com a frase “eu tento sair, mas isso vem até mim...”. Mais tocante ainda é ver Michael perceber os danos que causou e sua incapacidade de reparar. Mas por fim, ele oferece um relance de humanidade quando percebe que a carreira que seu filho escolheu, diferente da que gostaria, o faz feliz e agradece a Kay por tê-lo ajudado quando ele não pode. Somado a isso, existem outros arcos dramáticos, como o da irmã de Michael, Connie (Talia Shire) que acaba seguindo os passos do irmão e tantos outros personagens interessantes que povoam aquele mundo.

A direção de arte e os figurinos são perfeitos como sempre, dando um visual inconfundível ao filme, captados pela bela fotografia em tons amarelados, alaranjados e escuros. A trilha de Carmine Coppola pontua a trama com a eficiência dos longas anteriores, mostrando que a troca de compositores não prejudicou o resultado. Afinal de contas, o tema já estava composto. O trabalho foi apenas criar variações.

Destaque para a seqüência final na ópera, que faz contraponto à história narrada durante o filme e também ao que está acontecendo no momento. E o desfecho é angustiante, pessimista, e ao mesmo tempo nostálgico. Dá um aperto no coração quando vemos Michael jovem, no passado, dançando com Kay em momentos do primeiro filme. Vem em nossa mente toda a sua trajetória e, principalmente, sua decadência. E a cena final amarra os três filmes de forma genial. Aliás, a trilogia é como se fosse um longo filme de nove horas de duração. As partes II e III não foram forçadas. Elas são a seqüência lógica dos acontecimentos e exploram todas as possibilidades que a premissa oferecia.

Figurando entre uma das obras de arte mais elevadas do Cinema, a trilogia O Poderoso Chefão é indispensável no repertório de qualquer um que se interesse por arte e, principalmente, pela Sétima.

Nota: 10

sábado, 3 de julho de 2010

Filmes vistos em junho

Príncipe da Pérsia – as areias do tempo (Prince of Persia – the sands of time – 2010): Tenta repetir o sucesso de Piratas do Caribe, mas não tem o mesmo charme e carisma. Bela fotografia e efeitos visuais corretos, mas história rasa. Nota: 5

O Golpista do ano (I love you Phillp Morris – 2009): Comédia de humor negro super divertida. Destaque para as performances de Carey e McGregor. Nota: 8

The last station (Idem – 2009): A narrativa apresenta alguns problemas, mas nada que ofusque o poder da magnífica história de Leo Tolstoy e sua esposa Sofia. Destaque para o elenco brilhante. Nota: 8

Onde vivem os monstros (Where the wild things are – 2009): Interessante viagem na mente do garoto protagonista. Direção de arte maravilhosa na concepção artística das criaturas e dos cenários. Nota: 9

Sin City – a cidade do pecado (Sin City – 2005): Clássico das adaptações de HQ. Obrigatório para qualquer cinéfilo. Nota: 10

A Última tentação de Cristo (The Last teptation of Christ – 1988): A releitura e a diferente visão da vida de Jesus tornam o filme único. Dafoe está ótimo. Scorcese é um gênio, claro. Nota: 9

O guia do mochileiro das galáxias (The Hitchhiker's Guide to the Galaxy – 2005): Esse filme tem um espaço no meu coração. Humor ácido e aventura garantida. Sem contar na filosofia e mensagem passadas de forma suave. Que pena que as continuações não foram filmadas. Nota: 10

O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Assassination of Jesse James by Coward Robert Ford – 2007): O conflito psicológico é perfeitamente narrado. Fotografia maravilhosa e boas atuações. Nota: 10

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (The Lord of the rings – The Fellowship of the Ring)

O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel (The Lord of the rings – The Fellowship of the Ring) – EUA – 2001

Direção: Peter Jackson

Roteiro: Peter Jackson, Philippa Boyens e Frances Walsh, baseado no livro de J. R. R. Tolkien

A literatura é uma das maiores fontes das quais os diretores de cinema extraem adaptações. Adaptar livros é tarefa difícil. Pode render embaraços ou obras primas. A segunda opção é o caso do maravilhoso O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, dirigido pelo talentoso Peter Jackson. Quando Jackson anunciou que filmaria a cultuada trilogia de Tolkien, o mundo todo ficou em expectativa. Uns diziam que a história era impossível de ser filmada adequadamente devido a questões técnicas e de duração, outros diziam que seria um fiasco e alguns confiaram no talento de Jackson, já mostrado em filmes como Almas Gêmeas e Os Espíritos. O resultado foi que o mundo todo ficou maravilhado com a qualidade artística e técnica do longa. Há anos não se via algo tão arrebatador e fascinante no Cinema.

Jackson e suas colaboradoras escreveram um roteiro que se mantém muito fiel ao livro. Alterações são feitas, mas para o bem da obra cinematográfica. O fato é que o espírito e o tom do livro de Tolkien foram mantidos. Imagino que se ele fosse vivo e quisesse ver um filme baseado no seu livro, ele sairia da sala de cinema plenamente satisfeito com o trabalho de Jackson. As adaptações cinematográficas são difíceis, como disse antes, porque o diretor/roteirista ao mesmo tempo não pode querer “filmar o livro” ao pé da letra e também não pode se distanciar muito do material de origem. Ele deve apresentar sua visão da história. E poucas vezes vi tanta paixão e tanto respeito para com um livro e toda a cultura que ele representa em uma obra adaptada.

A direção de arte nada mais é do que magnífica. Afinal de contas, trazer à vida a Terra Média descrita por Tolkien não era tarefa fácil. Mas a equipe se sai muito bem. São inesquecíveis as imagens do Condado, de Valfenda, de Minas Mória e tudo que é visto na tela, incluindo as locações maravilhosas na Nova Zelândia, país de origem de Jackson. Tudo captado pela estupenda fotografia. Outro ponto altíssimo que enriquece o filme é a memorável trilha sonora de Howard Shore, com um tema maravilhoso que se repete ao longo do filme e que gruda em sua mente, e o mais importante, ajuda a criar o clima épico e traz à vida o tom da obra de Tolkien com a orquestra e o coral magníficos de Shore.

Outro aspecto impressionante é o elenco reunido no filme. Ian McKellen cria um Gandalf à altura do descrito no livro: sábio, forte, engraçado e amoroso, entendemos o poder do seu carisma e a importância de seu conselho e de tê-lo por perto. Virgo Mortensen e Sean Bean também se destacam como os Homens guerreiros e honrados, principalmente o primeiro. Elijah Wood é o perfeito Frodo, que não entende muito bem o porquê das coisas que acontecem consigo, mas é corajoso e leal a seus amigos e sua demanda. Christopher Lee é um assustador Saruman e Liv Tyler adorável e forte, como Arwen deve ser. Todo o gigante elenco tem seus momentos de destaque em tela.

Mesmo com todos esses aspectos da produção acima para quais não economizei elogios, eles não seria de grande ajuda se não fosse a direção brilhante de Jackson. Com movimentos de câmera inventivos e virtuosos do início ao fim, ele imprime uma qualidade visual ao filme inigualáveis. Tudo é muito gráfico e as imagens falam muito por si só. Ele consegue intercalar cenas de ação e aventura com outras de humor ou mesmo mais reflexivas e sentimentais. Consegue criar uma tensão quase insuportável quando quer, com na seqüência das Minas Mória ou levar o espectador às lágrimas nos momentos mais tocantes. Confesso: sempre choro quando vejo qualquer um dos três filmes.

Nas mãos de qualquer diretor, o filme poderia ser apenas mais uma aventura ou fantasia, mas Jackson e seu time elevaram o nível do longa à obra prima, com tudo o que eu falei acima somado a diálogos brilhantes como “não podemos escolher o tempo em que vivemos, mas podemos escolher o que fazer com o tempo que nos é dado” e “mesmo a menor pessoa pode mudar o curso da história”. O filme toca e ecoa na mente do espectador depois da sessão.

Já li o livro duas vezes e os filmes não tenho mais a conta de quantas vezes vi. Sei que O Senhor dos Anéis tem um lugar especial no meu coração. Espero escrever sobre os outros dois longas que compõe a trilogia.

Nota: 10

sábado, 26 de junho de 2010

Lost – o fim de um marco na TV

Não foram poucas as lágrimas derramadas por mim durante o último episódio. Afinal, foram seis anos acompanhando a trajetória daqueles que se tornaram meus amigos. Jack, o médico cético que aprendeu a ter fé; Sawyer, o homem traumatizado com sede de vingança que aprendeu a amar; Kate, abusada pelo pai e menosprezada pela mãe, desenvolveu uma auto-defesa contra o amor mas aprendeu a se abrir; Locke, que teve sua fé em algo maior comprovada ao longo da história; Sun e Jin que construíram um relacionamento sólido na ilha a partir de um casamento falido; Sayd, que depois de ser um torturador no passado, se tornou um sujeito humano e capaz de fazer amigos e amar; Desmond (meu preferido), sempre movido pelo amor por sua Penny e a vontade de ajudar os outros. Sem contar na imensa galeria de quadjuvantes que passou pela série, todos com histórias interessantes e arcos dramáticos fortes.

Aliás, fortes dramas sempre foi algo presente em Lost. Os produtores da série não tiveram medo de apostar sempre em mudanças, a cada temporada. No início, eram os maravilhosos flashbacks, que nos apresentavam o passado dos personagens e faziam contraponto com o que estávamos vendo no presente. Depois foram os inesperados e inéditos até então flashfowards, que confundiram a cabaça de todos os espectadores, mostrando o futuro dos nossos heróis fora da ilha. Não satisfeitos, os produtores da série nesta última temporada incluíram a realidade paralela (nem sei com chamar), em que acompanhamos os personagens numa realidade alternativa fora da ilha e dentro ao mesmo tempo, o que é explicado no último capítulo.

Foi com um pouco de tristeza que eu vi o último episódio, com de costume nas séries que eu vejo. É triste pensar que não vou mais ter acesso às aventuras daquele maravilhoso grupo, e principalmente não vou mais ter novos episódios dessa série que pouco tempo depois de seu fim, já se tornou um ícone pop.

Fico feliz de ter acompanhado essa obra nada menos do que excelente. Pontos para a TV Norte Americana.

Nota: 4 , 8 , 15 , 16 , 23 , 42

domingo, 20 de junho de 2010

Herói (Ying Xiong)

Herói (Ying Xiong) – China – 2002

Direção: Zhang Yimou

Roteiro: Li Feng, Zhang Yimou e Wang Bin

Na China medieval, Qin (Daoming Chen), o soberano da província do Norte, tem o sonho de unificar toda a China em um grande império. Com quase todas as províncias conquistadas através de muitas batalhas e derramamento de sangue, Qin fez muitos inimigos, dos quais três são os mais preocupantes: o casal Espada quebrada (Tony Leung) e Neve voadora (Maggie Cheung) que já invadiram o palácio uma vez e não concretizaram seu plano e Céu (Donnie Yen). Certo dia surge um Guerreiro sem nome (Jet Li) em seu palácio carregando as espadas dos três assassinos alegando tê-los matado, o que dá direito a ficar a dez passos do rei. Acompanhamos a trajetória do Guerreiro sem nome através de flashbacks narrados por ele mesmo ao soberano Qin, e depois também pelo próprio soberano, quando este descobre que os propósitos do Guerreiro sem nome não eram o que aparentavam.

O chinês Zhang Yimou conta a história de seu país com seu roteiro próprio desenvolvido em cerca de cinco anos. E tanto trabalho não foi em vão. A história é arrebatadora do começo ao fim. Poderia ser mais um filme de artes marciais genérico, mas ele mostra estilo ao lidar com o gênero wuxia pian. As lutas são elegantes e envolventes. Em cada uma delas, os envolvidos tem motivações pessoais ou ideais diferentes, e isso fica muito claro para o espectador. Quando vemos dois personagens lutando, sabemos o porquê da luta e o que levou cada um a estar ali. Aliás, os valores de coragem, honra, lealdade, justiça e amor estão presentes em todos os momentos. Nunca, nenhum dos personagens por algum momento deixa de seguí-los, e quando isso se apresenta na narrativa, é prontamente desmascarado.

E a parte técnica da direção de Yimou é nada menos do que brilhante. Ele abusa de elegantes câmeras altas total durante as lutas, como no duelo na floresta dourada e no palácio do soberano; e também de câmera baixa total na inesquecível cena do lago, em que os dois guerreiros exprimem sua dor através dos golpes em homenagem à guerreira morta. Usa também a câmera subjetiva que acompanha a chuva de flechas em direção à escola de caligrafia entrando pelo telhado com a flecha e acertando o seu alvo. Impressionante. Outro momento lindo é o traveling de 360 graus que Yimou faz ao redor de dois guerreiros duelando. Esse tipo de cuidado com a imagem, criatividade e genialidade seguem durante todo o filme. Cada cena tem sua particularidade. E cada vez que vejo o filme (já foram por volta de cinco), vejo algo diferente.

O que nos faz envolver com a história é a profundidade que o roteiro dá às motivações dos guerreiros, tornando fácil para o espectador se identificar com a história, mesmo se passando a milênios atrás e numa terra tão distante. Os quatro assassinos querem matar o soberano Qin por vingança. Lua segue se mestre Espada quebrada por admiração e amor. E o soberano Qin deseja unificar seu país e trazer paz para o povo, mesmo que seja a custo de uma guerra.

O aspecto mais poético e filosófico do longa reside na associação da esgrima com a caligrafia. A habilidade com a espada está diretamente ligada à habilidade com a escrita. E se o Guerreiro sem nome erra por achar que a caligrafia de Espada quebrada iria revelar o segredo de sua habilidade para a luta, ele entende que ela revela o segredo das motivações do seu coração. E quando por fim ele escreve “nossa terra” para Sem nome, torna-se completamente plausível a sua hesitação diante do soberano três anos atrás. Falas como “a dor de um homem é insignificante diante do sofrimento de todos” faz com que o filme deixe de ser um filme de artes marciais comum para se tornar uma obra prima.

As atuações são impecáveis, com destaque para Daoming Chen como o soberano Qin, sábio, impassivo e forte. O romance entre Espada quebrada e Neve voadora é tocante por causa do carisma e química entre Leung e Cheung. Jet Li encarna o Guerreiro sem nome com o talento habitual para filmes do gênero. É claro que seu talento para a luta se sobressai diante das partes mais dramáticas.

A trilha sonora é inesquecível. Abusa dos violinos solo, viola e violoncelo em uma melodia marcante que evoca todo o clima de heroísmo e abdicação dos personagens. E por vezes, escutamos uma voz feminina solo terna ou um coral masculino em momentos tensos. A música é um show aparte. Destaque para a fotografia maravilhosa que abusa das cores primárias, o que faz da imagem algo marcante, e ilumina bem os cenários e locações, realçando a beleza dos figurinos, a direção de arte na composição dos cenários (a escola de caligrafia, a casa de banhos, o palácio real, etc) e as locações esplêndidas no deserto, na floresta dourada, no lago, entre outras.

Herói é um filme inesquecível que está na minha lista de melhores de todos os tempos. Esse texto nada mais é do que minha homenagem a esta obra de arte, que além de ser visualmente bela, é impactante emocionalmente e traz conceitos de honra, paz (acredite) e de valor a “nossa terra” que estão em falta nos dias de hoje.

Nota: 10

Toy Story 3 (Idem)

Toy Story 3 (Idem) – EUA – 2010

Direção: Lee Unkrich

Roteiro: Michael Arndt

Quando escrevi sobre Up – Altas aventuras, não poupei elogios para a Pixar, empresa fundada por John Lasseter. E agora, depois de sair da sala de cinema na qual assisti a mais nova empreitada de Lasseter e companhia, não consigo pensar em outro elogio para eles além de geniais. Já estamos na metade do ano e até agora tinha visto poucas produções que haviam me emocionado tanto como esse mais novo Toy Story 3.

Onze anos se passaram desde a segunda parte, e com esses anos, Andy, o dono dos brinquedos se tornou em rapaz e está prestes a ir para a Universidade. Preocupados com seu destino e sentindo saudades de brincar com Andy, os brinquedos estão diante de um destino cruel: ir para o sótão ou serem doados para a creche. Nenhum dos destinos os agrada, visto que em ambos ficarão longe de seu amado dono. Vendo seus amigos brinquedos em apuros na creche, Woody, que havia se separado, se sente na obrigação de resgatá-los e levá-los para perto de Andy novamente.

O que poderia ser uma continuação boba que simplesmente reviveria os melhores momentos dos dois primeiros filmes é na verdade uma seqüência lógica dos acontecimentos, que aborda um drama que qualquer brinquedo (se tivesse vida, é claro) viveria: a separação do seu dono por este ter crescido e ter agora interesse em outras coisas. Não há como não se lembrar de nossa infância e dos brinquedos que deixamos para trás, o que simboliza também a perda da inocência e do mundo de fantasia em que vivem as crianças. Algo retratado de forma brilhante na divertidíssima seqüência inicial do filme. E como é tocante ver a felicidade dos brinquedos que consideram um pequeno momento com seu dono único.

E se o roteiro explora ao máximo o drama e a profundidade que a história pode render, é claro que não faltam os momentos engraçados, as seqüências de aventura de tirar o fôlego, os momentos tensos e o momentos ternos e sensíveis. Fiquei muito emocionado em certa parte em que todos os brinquedos seguram as mãos uns dos outros diante do inevitável. Inclusive vi pais de crianças chorando. Se todos os filmes em live action de Hollywood tivessem essa qualidade, seria excelente.

Outro ponto que se destaca é o vilão, um grande urso roxo que lidera os brinquedos na creche. Enquanto na maioria das produções, vilões são maus por natureza e atrapalham os mocinhos apenas por prazer, aqui, através de um emocionante flashback, conhecemos a triste história do urso e seus dois amigos e passamos a entender melhor o porquê de suas atitudes. Ele se torna um personagem tridimensional e “humanizado” pelo roteiro, pode-se dizer. E nisto, estamos falando num filme supostamente para crianças.

Com relação ao visual do longa, não há muito que falar sendo uma produção da Pixar. A direção de arte trata com muito cuidado todos os cenários, a aparência dos brinquedos e dos seres humanos, transmitindo a mensagem visual de forma clara como deve ser. A direção ágil torna as seqüencias de ação sempre empolgantes, e até mesmo aquela batida cena de sucessiva troca de roupas é hilária, sem ser clichê. Também não faltam as referências clássicas da série a outros filmes, como Missão impossível e O senhor dos anéis, que são os que me lembro.

Com personagens novos muito interessantes, Toy Story 3 ficará pra sempre na memória dos espectadores. Não é só mais um filme de animação. É, com certeza, um dos melhores filmes de 2010.

Nota: 10

A fita branca (Das Weisse Band)

A fita branca (Das Weisse Band) – Alemanha – 2009

Direção: Michael Haneke

Roteiro: Michael Haneke

Ambientado na Alemanha no período pré Primeira Guerra Mundial, A fita branca conta a história de um vilarejo no qual seus habitantes vivem no sistema feudal que passa por uma série de acontecimentos estranhos, dos quais ninguém sabe quem é o autor e que acaba gerando, por conseqüência, punições para seus moradores.

Servindo como muleta (leia-se alegoria) para os fatos que culminaram na Segunda Guerra Mundial, a história gira em torno, em grande parte, das crianças daquela vila, que são submetidas à violência, desumanidade e falta de cuidado por parte dos adultos que os cercam. Seja o barão, o doutor da vila ou mesmo o pastor, que reprime qualquer manifestação de personalidade de seus filhos. Olhando a realidade daqueles pequenos seres humanos, não é difícil imaginar que foi de fato aquela geração que protagonizou uma das maiores manchas da história da humanidade: o nazismo.

Adotando uma fotografia magnífica em preto e branco, entendemos que para Michael Haneke não é interessante mostrar a beleza dos cenários, pessoas ou locações, mas sim, a falta de vida, amor e alegria daqueles seres que povoam o lugarejo.

Pessimismo com a humanidade é o sentimento predominante passado por Haneke. Praticamente todos os personagens agem com desumanidade uns para com os outros sem o menor pudor, como se aquela atitude fosse o comum e o aceitável daquele ambiente a séculos. Os homens pisam e humilham a mulheres, as crianças, enquanto pessoas mais suscetíveis à influência do ambiente, acabam tendo que carregar todo o peso e as conseqüências da falta de caráter e valor de seus superiores. E a fita branca do título, que para o reverendo do filme é símbolo de pureza e inocência, nada mais é do que símbolo das amarras emocionais, morais e sociais à que as pobres crianças estão submetidas. Nesse ponto, as performances do elenco se sobressaem, inclusive o elenco infantil, extremamente expressivo e assustadoramente profissional da arte de atuar, mesmo tão jovens.

Vencedor de vários prêmios ao redor do mundo, A fita branca pode ser considerado por alguns como uma justificativa para os alemães por seu comportamento durante o período que segue a história do filme, mas pra mim o longa somente lança um olhar humano sobre uma geração que sofre por conta dos erros da geração anterior.

Nota: 9

quarta-feira, 16 de junho de 2010

The Pacific (Minissérie da HBO)

Produção: Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman

Direção: Jeremy Podeswa, Carl Franklin, David Nutter, Timothy Van Patten.

Anunciada como a minissérie mais cara da história da TV, The Pacific conta a história em dez episódios de três fuzileiros americanos em suas jornadas nos territórios orientais durante a Segunda Guerra Mundial. Cineasta obcecado com o tema Segunda Guerra e o Holocausto, Spielberg já realizou verdadeiras obras primas como A lista de Schindler, O resgate do soldado Ryan e outra ótima minissérie chamada Band of Brothers.

The Pacific é superior a Band of Brothers nos aspectos técnicos, visto o investimento, é claro. Mas na parte artística, os episódios deixam um pouco a desejar. Não são todos os que tocam de fato no espectador. Aqueles que o fazem são aqueles que se concentram mais nos personagens do que nas batalhas em si. Mesmo essas sendo muito bem realizadas, não fazem sentido se o espectador não está comprometido com o destino dos homens envolvidos. E nisso, Band of Brothers é mais bem sucedida.

As performances são impecáveis, a direção de arte e efeitos visuais impressionantes e a trilha sonora emocionante. Uma grande combinação que fazem a minissérie inesquecível. A minissérie não se preocupa muito em abordar questões políticas e sociais envolvendo o lado dos japoneses. Apenas acompanha os três fuzileiros americanos em suas jornadas durante os quatro anos de guerra e principalmente as conseqüências desta nas suas vidas. Lembrei-me muito do vencedor do Oscar de melhor filme desse ano, o ótimo Guerra ao Terror e também do clássico Os melhores anos de nossas vidas nos últimos episódios.

Sem dúvida, recomendo The Pacific.

Nota: 8