domingo, 20 de junho de 2010

A fita branca (Das Weisse Band)

A fita branca (Das Weisse Band) – Alemanha – 2009

Direção: Michael Haneke

Roteiro: Michael Haneke

Ambientado na Alemanha no período pré Primeira Guerra Mundial, A fita branca conta a história de um vilarejo no qual seus habitantes vivem no sistema feudal que passa por uma série de acontecimentos estranhos, dos quais ninguém sabe quem é o autor e que acaba gerando, por conseqüência, punições para seus moradores.

Servindo como muleta (leia-se alegoria) para os fatos que culminaram na Segunda Guerra Mundial, a história gira em torno, em grande parte, das crianças daquela vila, que são submetidas à violência, desumanidade e falta de cuidado por parte dos adultos que os cercam. Seja o barão, o doutor da vila ou mesmo o pastor, que reprime qualquer manifestação de personalidade de seus filhos. Olhando a realidade daqueles pequenos seres humanos, não é difícil imaginar que foi de fato aquela geração que protagonizou uma das maiores manchas da história da humanidade: o nazismo.

Adotando uma fotografia magnífica em preto e branco, entendemos que para Michael Haneke não é interessante mostrar a beleza dos cenários, pessoas ou locações, mas sim, a falta de vida, amor e alegria daqueles seres que povoam o lugarejo.

Pessimismo com a humanidade é o sentimento predominante passado por Haneke. Praticamente todos os personagens agem com desumanidade uns para com os outros sem o menor pudor, como se aquela atitude fosse o comum e o aceitável daquele ambiente a séculos. Os homens pisam e humilham a mulheres, as crianças, enquanto pessoas mais suscetíveis à influência do ambiente, acabam tendo que carregar todo o peso e as conseqüências da falta de caráter e valor de seus superiores. E a fita branca do título, que para o reverendo do filme é símbolo de pureza e inocência, nada mais é do que símbolo das amarras emocionais, morais e sociais à que as pobres crianças estão submetidas. Nesse ponto, as performances do elenco se sobressaem, inclusive o elenco infantil, extremamente expressivo e assustadoramente profissional da arte de atuar, mesmo tão jovens.

Vencedor de vários prêmios ao redor do mundo, A fita branca pode ser considerado por alguns como uma justificativa para os alemães por seu comportamento durante o período que segue a história do filme, mas pra mim o longa somente lança um olhar humano sobre uma geração que sofre por conta dos erros da geração anterior.

Nota: 9

quarta-feira, 16 de junho de 2010

The Pacific (Minissérie da HBO)

Produção: Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman

Direção: Jeremy Podeswa, Carl Franklin, David Nutter, Timothy Van Patten.

Anunciada como a minissérie mais cara da história da TV, The Pacific conta a história em dez episódios de três fuzileiros americanos em suas jornadas nos territórios orientais durante a Segunda Guerra Mundial. Cineasta obcecado com o tema Segunda Guerra e o Holocausto, Spielberg já realizou verdadeiras obras primas como A lista de Schindler, O resgate do soldado Ryan e outra ótima minissérie chamada Band of Brothers.

The Pacific é superior a Band of Brothers nos aspectos técnicos, visto o investimento, é claro. Mas na parte artística, os episódios deixam um pouco a desejar. Não são todos os que tocam de fato no espectador. Aqueles que o fazem são aqueles que se concentram mais nos personagens do que nas batalhas em si. Mesmo essas sendo muito bem realizadas, não fazem sentido se o espectador não está comprometido com o destino dos homens envolvidos. E nisso, Band of Brothers é mais bem sucedida.

As performances são impecáveis, a direção de arte e efeitos visuais impressionantes e a trilha sonora emocionante. Uma grande combinação que fazem a minissérie inesquecível. A minissérie não se preocupa muito em abordar questões políticas e sociais envolvendo o lado dos japoneses. Apenas acompanha os três fuzileiros americanos em suas jornadas durante os quatro anos de guerra e principalmente as conseqüências desta nas suas vidas. Lembrei-me muito do vencedor do Oscar de melhor filme desse ano, o ótimo Guerra ao Terror e também do clássico Os melhores anos de nossas vidas nos últimos episódios.

Sem dúvida, recomendo The Pacific.

Nota: 8

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Top 5 da Sessão da Tarde

Já faz longos anos que não tenho tempo para assistir filmes na Sessão da Tarde da rede Globo. Minha admiração pela Emissora atualmente não é das maiores, como expressei nesse post, mas não há como negar a parcela considerável de longas que assisti na Globo durante minha adolescência, logo depois que chegava da escola e ficava o resto da tarde jogando vídeo games ou assistindo TV. E qualquer um da minha idade (não sei como anda a programação dos filmes hoje em dia) pode lembrar aqueles “clássicos” que tinham reprises periódicas incansáveis e que fizeram e fazem parte da cultura pop e das nossas vidas.

Vamos à minha lista...

1. Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller’s Day Off – EUA – 1986)
Direção: John Hughes
Momentos antológicos como o carrão vermelho caindo no meio da floresta, o número musical de Ferris no meio do desfile da cidade e o cachorro atacando o diretor do colégio fazem com que o filme seja inesquecível para aqueles que assistiram em sua adolescência e o colocam no Top 1 da lista. Toda a rebeldia sem causa de um adolescente é expresso através do comportamento de Ferris com relação aos seus pais, sua irmã, sua escola, melhor amigo e namorada.

2. Os Goonies (The Goonies – EUA – 1985)
Direção: Richard Donner
Poucos filmes têm o encanto e são tão divertidos como esse. Quem nunca se imaginou achando um mapa do tesouro e saindo à caça? O fio condutor do filme é a necessidade que os Goonies têm de ajudar os seus pais a não perder a sua casa e por conseqüência, se mudarem e se afastarem de seus amigos. História cativante e envolvente que tem o dedo do mestre Spielberg.

3. Te pego lá fora (Three O'Clock High – EUA – 1987)
Direção: Phil Joanou
Quem nunca se envolveu em uma confusão no colégio? Qualquer um se identifica com a história do tímido rapaz que se envolve sem querer em uma briga na escola pelo motivo mais idiota. O filme tem seus momentos inspirados e muito engraçados, o que garantiu a terceira posição da minha lista.

4. Quero ser grande (Big – EUA – 1988)
Direção: Penny Marshall
Quem não se lembra de Tom Hanks tocando o Bife de pé em cima de um teclado gigante numa loja de brinquedos? O filme brinca com todas as possibilidades que a premissa oferece: o que aconteceria se uma criança fosse adulta por um dia? O longa é diversão garantida.

5. O Falcão está à solta (Hudson Hawk – EUA – 1991)
Direção: Michael Lehmann
Hoje quando vejo o filme, enxergo muitos defeitos. Mas nas incontáveis vezes que assisti quando criança e adolescente achava que não existia nada mais divertido. Bruce Willis na pele de Hawk tendo que roubar obras de Da Vinci contra sua vontade rende gags cômicas ótimas e muita aventura. Sempre amei o casal de milionários malucos.

Bem, esta é minha lista Top 5 da Sessão da Tarde. Se vocês tiverem mais algum longa em mente (com certeza), deixem um comentário para relembrarmos. Mais listas como essa serão postadas no blog num futuro próximo.

sábado, 5 de junho de 2010

Filmes vistos em maio

Brideshead (Brideshead – desejo e poder – 2009): Uma porcaria sem conteúdo dramático nenhum. Apenas uma fotografia bonita. Nota: 2

500 dias com ela ((500) Day of Summer – 2009): Uma piada de mau gosto superestimada por um monte de gente. O romance não convence em momento nenhum. Nota: 1

Assassinato no expresso do Oriente (Murder on the Orient Express – 1974):
O livro está na estante me esperando para ser lido. Espero que seja tão bom ou melhor do que essa adapatação cinematográfica. Elenco brilhante história interessante. Nota: 9

Fúria de titãs (Clash of the titans – 2010): Efeitos visuais e seqüências de ação boas, mas sem conteúdo dramático. História bastante pedestre. Nota: 5

Vigaristas (The brothers Bloom – 2009): Divertido e ótimo suspense. O trio de protagonistas está muito bem entrosado e a fotografia é bastante original. Nota: 8

Zumbilândia (Zombiland – 2009): Divertidíssimo. Harelson oferece uma ótima performance e o roteiro é super inventivo e imprevisível. Nota: 9

Joana D`arc (Joan D`Arc – 1999): Ótimo épico com performances muito boas de todo o elenco. Direção firme e correta. Nota: 8

Príncipe da Pérsia – as areias do tempo (Prince of Persia – the sands of time – 2010): O longa tenta repetir o sucesso de Piratas do Caribe, mas não consegue. Falta conteúdo e envolvimento do espectador com os personagens. Nota: 6

segunda-feira, 31 de maio de 2010

E o vento levou (Gone with the Wind)

E o vento levou (Gone with the Wind) – EUA – 1939

Direção: Victor Fleming

Roteiro: Sidney Howard, baseado no livro de Margaret Mitchell

Considerado o clássico eterno de Hollywood, E o vento levou é envolto em uma atmosfera épica desde a sua produção, que passou na mão de três diretores por conta do gênio difícil do produtor David O. Selznick, tinha o roteiro escrito e alterado todos os dias no set de filmagem, Selznick realizou um processo de seleção da atriz que interpretaria Scarlett O’Hara que envolveu todo o país até a sua tão aguardada estréia, figurando até hoje como o filme que mais vendeu bilhetes do mundo (Avatar arrecadou mais em dinheiro, mas não em número de bilhetes), a história de uma mulher em meio à Guerra Civil americana tocou platéias no mundo todo e continua com a mesma força até os dias atuais.

Scarlett O’Hara (Vivien Leigh) é uma moça sulista dos Estados Unidos da metade do século XIX, vivendo com sua família em Tara, fazenda de sua pai irlandês, com todo o conforto que sua posição social e a riqueza pode proporcionar. Em um churrasco que reúne toda a alta sociedade da região, Scarlett descobre duas coisas: que Ashley (Leslie Howard) o rapaz por quem se interessa vai se casar com sua amiga Melanie, e que o país acaba de entrar em Guerra Civil, o norte contra o sul. Neste mesmo dia conhece Rhett Butler (Clark Gable), aquele que viria a ser a única personalidade capaz de desafiá-la à altura durante toda a sua vida. A partir daí, acompanhamos toda a trajetória de Scarlett em meio às suas desilusões amorosas, sua luta por sobrevivência, sua paixão secreta por Ashley casado com sua amiga, tudo isso tendo como cenário a Guerra Civil Americana.

O filme é um épico em todos os sentidos, como nunca tinha sido feito entes em Hollywood. A fotografia é em cores (a primeira da história do Cinema em cores), os planos e enquadramentos de câmera são belíssimos e grandiosos, os figurinos exuberantes, a trilha sonora marcante e que evoca a grandiosidade da história que está sendo contada, as atuações são teatrais, é claro, devido a época em que o filme foi feito, mas magistrais ao mesmo tempo. Não consigo imaginar outro ator interpretando Rhett Butler além de Gable com seu charme, humor e vivacidade ou outra Scarlett além de Vivien Leigh, sensual, impulsiva, manipuladora e acima de tudo, forte e determinada.

O filme é na verdade sobre ela, Scarlett. Uma garota sulista normal, avessa aos assuntos de guerra, cuja ameaça considerava apenas um transtorno para seus planos de namoro e suas atividades diárias, como descobrimos na primeira cena em que conversa com os gêmeos. E é essa postura que ela assume durante toda a história, nunca se importando com a causa da guerra de que tantos falam, desejando que essa estúpida Guerra acabasse logo para que seu amado Ashley voltasse para casa o mais rápido possível. Mas isso não a impedia de ser forte e ter um instinto de sobrevivência maior do que a maioria a seu redor, incluindo sua amiga Melanie. Uma das cenas mais fortes e bem realizadas de fato exprime isso. Melanie entra em trabalho de parto no momento em que os yankes invadem a cidade em que elas estão. Desesperada por um médico, Scarlet vai ao hospital chamar o doutor com quem já trabalhou. Chegando, descobre que os sulistas perderam a batalha e existem centenas de feridos para serem cuidados. Esse é um dos planos mais marcantes do filme, em que a câmera na grua vai se afastando de Scarlett num traveling que sobe e mostra toda a área onde se espalham as centenas de mortos e feridos. Conseguimos ver a grandiosidade os eventos nos quais Scarlet estava envolvida ao mesmo tempo em que os desprezava por motivações pessoais.

Aliás, a personalidade de Scarlett é desenvolvida ao longo das quase quatro horas de filme. A performance de Vivien Leigh é arrebatadora, com um tom teatral (Leigh era atriz de teatro antes do filme) e novelesca. Scarlet é egoísta, impetuosa, sensual, determinada e acima de tudo forte. Sem contar em seus outros adjetivos. Passa por problemas como a morte de entes queridos, três casamentos sem amor, uma guerra civil, passa fome e é obrigada a reerguer a família, mas ainda assim não desiste de lutar. Sempre motivada por seu amor por Ashley. A força de Scarlett é demonstrada brilhantemente por uma frase repetida por ela várias vezes ao longo do filme: “vou pensar sobre isso amanha...”. Toda a poder de sua personalidade pode ser resumida por essa máxima, que ela carrega consigo e na qual se sustenta diante das adversidades. Ela não desiste, só espera para pensar com clareza no seu próximo passo.

Recheado de momentos inesquecíveis como o que Scarlet se encontra com o médico onde os feridos se encontram, temos ainda a cena lendária em que ela promete que nunca mais passará fome debaixo do por do sol em Tara e ao som da trilha de Max Steiner, a cena do parto de Melanie, o incêndio em Atlanta, a conversa final entre Scarlett e Rhett, entre outras. O filme é um épico em todos os sentidos da palavra.

Muitos filmes, por brilhantes que sejam e por maior que seja sua representação na história da Sétima Arte acabam envelhecendo, por talvez servirem apenas para a época em que foram feitos. Não é o que acontece com E o vento levou. O filme continua causando o mesmo impacto setenta anos depois de seu lançamento. Isso acontece pelo fato de abordar assuntos atemporais como a guerra, sempre presente entre os seres humanos, e os seres humanos em si e suas paixões, motivações, defeitos e qualidades.

Quem levou o crédito de toda a direção foi Victor Fleming, responsável pelo excelente O Mágico de Oz. Mas o filme, que foi dirigido oficialmente por três diretores, pode dizer-se que foi dirigido por quatro. O quarto foi o próprio produtor David. O Selznick. Este demitiu os outros dois primeiros diretores por diferenças criativas e problemas pessoais. Quem deu toda a forma ao filme de fato foi Fleming. A história de quase quatro horas soa por vezes cansativa, mas ele consegue desenvolver todos os arcos dramáticos e imprimir força e profundidade à história. Mesmo às vezes não simpatizando muito com Scarlet, nos importamos com seu destino e o dos outros personagens. Todos são humanos.

Já assisti ao longa três vezes e não me considero em muitas condições de escrever sobre. Apenas quero prestar minha homenagem a esta obra de arte que faz parte da minha vida e de muitas outras pessoas.

PS.: Todas as vezes que vi, não consigo parar de pensar em como seria assisti-lo no cinema e testemunhar o impacto que causou na época em que foi lançado. Mas é só uma divagação de um cinéfilo.

Nota: 10